===== Elogio de Eros no Banquete (Brisson) ===== //BRISSON, Luc. Platon. Le Banquet. Paris: GF-Flammarion, 2007// * O Banquete organiza-se como uma sequência de elogios, estruturados segundo uma convenção retórica explícita, na qual o discurso sobre Eros funciona simultaneamente como exercício formal, confronto de posições e progressão filosófica. * O enquadramento do diálogo impõe a cada conviva a tarefa de proferir um elogio, inscrevendo o debate no gênero do epainos ou do egkōmion. * Essa escolha formal não é contingente, pois condiciona o modo de exposição, os critérios de avaliação e a própria inteligibilidade do objeto elogiado. * O elogio não visa apenas exaltar, mas revelar a natureza de Eros a partir dos benefícios que dele decorrem. * O elogio, enquanto gênero retórico, obedece a regras precisas que Platão explora e tensiona. * Tradicionalmente, o elogio começa pela determinação da natureza do objeto e prossegue pela enumeração de seus efeitos benéficos. * A referência posterior a tratados retóricos permite compreender retrospectivamente a arquitetura implícita dos discursos do Banquete. * Platão utiliza conscientemente esse esquema para expor suas insuficiências e possibilidades filosóficas. * A pluralidade dos elogios não é acidental, mas estrutural. * Seis discursos têm Eros como objeto direto, e um último elogia Sócrates, deslocando o foco do deus para a figura do filósofo. * Cada discurso preserva a singularidade estilística e conceitual de seu autor. * Essa diversidade impede qualquer leitura homogênea e exige uma reconstrução diferencial das posições em jogo. * Os seis elogios de Eros organizam-se segundo uma lógica de oposição em três pares. * Cada par articula uma tese sobre Eros que é corrigida, ampliada ou deslocada pelo discurso seguinte. * Essa estrutura progressiva prepara a emergência da concepção socrático-diotímica. * O diálogo não avança por refutação direta, mas por deslocamento de nível. ====== Primeiro par: Phèdre e Agathon ====== * Fedro concebe Eros como uma divindade única e primordial, definida por sua antiguidade. * A antiguidade confere a Eros dignidade ontológica e autoridade normativa. * Sendo o mais antigo dos deuses, Eros é também a fonte dos maiores bens. * Seu poder funda a virtude, a coragem e a busca da honra tanto na vida quanto na morte. * A concepção de Fedro permanece inscrita no horizonte da teologia tradicional. * O testemunho dos poetas serve como garantia de verdade. * A eficácia moral de Eros é pensada em termos de exemplaridade heroica. * O amor é valorizado sobretudo como princípio de nobreza e sacrifício. * Agathon, mantendo a unicidade de Eros, inverte a determinação fundamental proposta por Fedro. * Eros não é o mais antigo, mas o mais jovem dos deuses. * Sua juventude exprime leveza, delicadeza e mobilidade. * As virtudes que ele personifica são a justiça, a temperança e a coragem.. * O discurso de Agathon privilegia a forma estética e moral. * A natureza de Eros é descrita a partir de qualidades harmoniosas. * Os benefícios de Eros consistem na difusão dessas qualidades entre todos. * O elogio concentra-se mais na beleza do deus do que na sua função mediadora. ====== Segundo par: Pausânias e Erixímaco ====== * Com Pausânias, o discurso sobre Eros deixa de ser simplesmente descritivo ou laudatório e passa a assumir uma função normativa. * A tese central consiste em afirmar que não existe Eros sem Afrodite. * Ora, como existem duas Afrodites, torna-se necessário reconhecer a existência de dois Eros. * A distinção não é apenas mitológica, mas imediatamente ética. * As duas Afrodites determinam dois regimes de amor radicalmente distintos. * Afrodite Pandemos, filha de Zeus e Dione, corresponde a um Eros ligado à mistura dos princípios masculino e feminino. * Esse Eros dirige-se indiferentemente a homens e mulheres. * Ele se fixa mais no corpo do que na alma e privilegia a satisfação do ato em detrimento de sua forma. * O Eros associado à Afrodite Urânia possui características opostas. * Afrodite Urânia nasce apenas de um princípio masculino. * O Eros que lhe corresponde dirige-se exclusivamente aos homens. * Seu objeto não é o corpo, mas a alma, e sua finalidade é a formação moral. * A distinção entre os dois Eros serve a Pausânias para legitimar uma norma social específica de Atenas. * O problema não é o amor em si, mas o tipo de amor. * O valor moral de uma relação depende da intenção que a orienta. * A prática erótica é julgada à luz da virtude que pode produzir. * O discurso de Pausânias permanece, contudo, limitado ao domínio humano. * A dualidade dos Eros é pensada apenas em função das relações sociais e educativas. * O amor é avaliado enquanto prática moral e política. * Não há ainda uma extensão cosmológica da distinção. * Erixímaco opera precisamente essa extensão. * Médico de profissão, ele transfere a dualidade dos Eros para o conjunto do real. * O bom Eros e o mau Eros atravessam todos os domínios do cosmos. * A distinção torna-se princípio de inteligibilidade universal. * Na medicina, o bom Eros é o que estabelece a harmonia entre os humores. * A saúde resulta da justa proporção. * A doença nasce do excesso ou do desequilíbrio. * O amor torna-se princípio de regulação fisiológica. * Na música, a mesma lógica se aplica. * A harmonia musical depende da conciliação de tensões opostas. * O bom Eros produz consonância. * O mau Eros introduz dissonância e desordem. * A astronomia e a divinação obedecem ao mesmo esquema. * Os movimentos celestes expressam uma ordem erótica. * A divinação busca interpretar os sinais dessa ordem. * O cosmos inteiro é atravessado por forças de concórdia e discórdia. * Essa universalização, porém, tem um custo. * A distinção entre os dois Eros passa a funcionar como um princípio abstrato. * A referência concreta aos cultos e práticas religiosas torna-se problemática. * O mito é claramente instrumentalizado em favor de uma construção filosófica. * A oposição radical entre Afrodite Urânia e Afrodite Pandemos não corresponde aos dados cultuais. * Os cultos atenienses não sustentam essa separação ética rígida. * Afrodite Urânia estava longe de ser exclusivamente “espiritual”. * A construção de Pausânias e Erixímaco é, portanto, essencialmente filosófica. ====== Terceiro par: Aristófanes e Sócrates ====== * Com Aristófanes, o elogio de Eros sofre uma transformação decisiva. * Não se trata mais de definir sua natureza nem de classificá-lo. * O discurso assume a forma de um mito etiológico. * Eros aparece como resposta a uma ferida originária da condição humana. * O mito dos seres esféricos descreve um estado primordial da humanidade. * Os seres humanos eram completos, duplos e autossuficientes. * Sua forma circular indicava perfeição e totalidade. * A divisão em três gêneros remete a uma ordem cosmológica. * A hybris desses seres provoca a intervenção de Zeus. * A divisão dos corpos institui a carência. * O umbigo torna-se a marca visível da cisão. * A existência humana passa a ser definida pela falta. * A primeira consequência da cisão é quase fatal. * Cada metade busca desesperadamente a outra. * A fusão total torna-se impossível. * A vida humana corre o risco de desaparecer. * A segunda intervenção de Zeus introduz uma distância estruturante. * A sexualidade permite reencontros provisórios. * A separação torna-se suportável. * Estabelece-se uma justa distância entre os humanos. * Essa distância não é apenas antropológica. * Ela é também cosmológica. * E teológica. * O equilíbrio entre homens e deuses é restaurado. * Eros surge como a força que tenta recompor a unidade perdida. * Sua potência reside na reunião sensível. * Ele atua no plano do corpo. * A felicidade humana consiste na reconexão com a metade perdida. * A tipologia sexual apresentada por Aristófanes decorre diretamente do mito. * Cada tipo de desejo corresponde a uma origem ontológica. * O mito fornece uma legitimação simbólica das práticas eróticas. * O amor é pensado como destino corporal. * Com Sócrates, relatando o ensinamento de Diotima, ocorre uma ruptura decisiva. * O amor não é mais pensado apenas no plano do sensível. * Introduz-se explicitamente a distinção entre sensível e inteligível. * Eros deixa de ser fim para tornar-se mediação. * Três teses fundamentais estruturam o discurso socrático. * O amor é sempre amor de algo. * Seu objeto é o belo inseparável do bem. * O amor implica necessariamente falta. * Essas determinações excluem Eros do estatuto divino. * Os deuses não carecem de nada. * Eros é, portanto, um daimon. * Ele ocupa o espaço intermediário entre homens e deuses. * O mito do nascimento de Eros explica sua natureza. * Filho de Penúria e Recurso. * Ele herda simultaneamente a carência e a astúcia. * É desejo estruturado, não plenitude. * A finalidade de Eros é a posse do bem para sempre. * Isso só é possível pela geração. * Seja a geração segundo o corpo. * Seja a geração segundo a alma. * A geração segundo a alma conduz ao inteligível. * O amor torna-se caminho iniciático. * O vocabulário dos mistérios estrutura o percurso. * A contemplação do Belo em si constitui o ápice. * Sócrates se opõe assim frontalmente a Aristófanes. * Para Aristófanes, a união sensível é o termo. * Para Sócrates, ela é apenas um estágio. * Eros é princípio de elevação, não de retorno. ====== Conclusões gerais ====== * O Banquete não apresenta uma doutrina única de Eros. * Ele expõe uma pluralidade de figuras. * Cada uma corresponde a um horizonte religioso e filosófico distinto. * A unidade do diálogo é dinâmica, não dogmática. * Apesar da diversidade, uma função comum se impõe. * Eros é sempre princípio de relação. * Ele liga, media, atravessa. * Sua essência é a passagem. * A concepção socrática redefine radicalmente essa função. * A relação torna-se elevação. * A mediação torna-se ontológica. * Eros é o motor da filosofia. * A tipologia erótica reflete uma estrutura social precisa. * A valorização do masculino decorre da exclusão das mulheres da vida pública. * O amor entre homens é visto como via de cultura e política. * A sexualidade é pensada em função de seus prolongamentos simbólicos. * O Banquete mostra, assim, como o mito é transfigurado em logos. * O mito não é abolido. * Ele é trabalhado filosoficamente. * Eros encarna o próprio movimento do pensamento. {{tag>Platão Brisson Banquete Eros Afrodite Diotima}}