====== Medicina ====== //MCEVILLEY, Thomas. The Shape of Ancient Thought. New York: Allworth Press, 2002.// * A prática antiga do mercado como território neutro de troca deve ser compreendida como um modelo ampliado de circulação não apenas de bens materiais, mas também de saberes. * O mercado funciona como espaço institucionalizado de intercâmbio entre regiões distintas. * Esse intercâmbio inclui saberes médicos e religiosos concebidos como produtos transmissíveis. * O saber circula como algo que pode ser adquirido, transferido e apropriado. * O interesse dos soberanos persas por médicos estrangeiros manifesta uma política deliberada de acumulação de saber especializado. * A saúde da família real é concebida como questão de Estado. * Médicos são convocados de diferentes regiões como especialistas portadores de técnicas eficazes. * O saber médico é tratado como recurso estratégico. * A presença documentada de médicos gregos na corte persa indica o reconhecimento internacional de sua competência. * Figuras como Democedes, Apolonides, Ctesias e Polícritos exercem funções prolongadas junto aos reis. * Esses médicos não são apenas técnicos ocasionais, mas integrantes estáveis da corte. * A mobilidade desses agentes revela redes de circulação do saber entre Grécia e Oriente. * A ausência de documentação explícita sobre médicos indianos não invalida a hipótese de sua presença indireta. * A existência de uma tradição fisiológica indiana conhecida na Grécia clássica sugere vias de transmissão. * A corte persa funciona como intermediária cultural entre Índia e mundo grego. * A circulação de saberes não depende de registros diretos para ser historicamente eficaz. * O estatuto do médico antigo não se reduz à prática terapêutica especializada. * A profissão médica ainda não se separou do xamanismo. * O médico reúne funções de cura, magia, mito, reflexão cosmológica e canto. * O saber médico pertence a um complexo simbólico mais amplo. * Muitos pensadores pré-socráticos devem ser compreendidos nesse horizonte profissional híbrido. * Aos olhos dos soberanos orientais, tais figuras aparecem como médicos. * A filosofia nascente não se distingue ainda como disciplina autônoma. * Ela emerge no interior de práticas rituais, terapêuticas e poéticas. * Empédocles exemplifica de modo paradigmático essa configuração. * Ele é simultaneamente autor de construções conceituais rigorosas e praticante de poderes mágicos. * Reivindica controle sobre forças naturais como ventos e tempestades. * É reconhecido sobretudo como curador de doenças. * A autocompreensão de Empédocles confirma a amplitude de seu papel. * Ele se apresenta como destinatário de pedidos de profecia. * É procurado por enfermos em busca da palavra que cura. * A palavra terapêutica possui eficácia simbólica e vital. * A biografia mítica de Empédocles reforça sua assimilação ao xamã. * A morte no Etna simboliza a passagem do humano ao divino. * A crença na reencarnação estrutura sua visão do destino da alma. * O filósofo ocupa o limiar entre homem e deus. * A tipologia empedocliana das últimas encarnações explicita o campo prototípico do filósofo. * Profeta, poeta, médico e governante constituem figuras limítrofes. * Essas funções concentram saber, palavra e poder. * A filosofia emerge na intersecção dessas figuras. * A Odisseia fornece um testemunho arcaico dessa estrutura social. * Comunidades acolhem estrangeiros apenas se portadores de competências específicas. * Profeta, curador, construtor e poeta são figuras valorizadas. * O saber especializado legitima a mobilidade. * A convergência entre profecia, cura e poesia define um campo funcional unitário. * O filósofo arcaico se insere nesse campo. * Ele não se distingue ainda por abstração conceitual. * Sua autoridade deriva da eficácia de sua palavra. * Evidências orientais confirmam a mobilidade controlada desses especialistas. * Reis solicitam conjuradores e feiticeiros de outras regiões. * O saber mágico-religioso é tratado como recurso transferível. * A circulação é regulada por acordos políticos. * A importação de especialistas implica também a importação de práticas religiosas. * Rituais e técnicas são transplantados junto com seus agentes. * A Grécia recebe elementos orientais por meio desses mediadores. * O saber não circula de forma abstrata, mas encarnada em pessoas. * O pedido de um filósofo como bem transferível confirma o estatuto artesanal do pensamento. * O filósofo figura ao lado de mercadorias e especialistas técnicos. * Ele é concebido como artesão do sagrado. * O pensamento é uma prática transmissível. * O médico antigo transmite não apenas técnicas, mas doutrinas e palavras eficazes. * A cura envolve discurso e encantamento. * O saber inclui explicações cosmológicas e antropológicas. * A medicina funciona como veículo de protofilosofia. * A corte persa constitui um espaço privilegiado de condensação e difusão desses saberes. * Médicos de diversas origens convivem e trocam doutrinas. * Apresentações são preparadas e reiteradas profissionalmente. * O saber se sistematiza na prática da exposição. * O episódio de Democedes ilustra um mecanismo concreto de transmissão acelerada. * Um médico grego passa da tirania de Samos à corte persa. * Torna-se próximo do rei por sua eficácia terapêutica. * Permanece retido como especialista valioso. * A retenção forçada de artesãos revela o valor estratégico do saber. * Tratados preveem a extradição de especialistas fugitivos. * O saber é considerado propriedade política. * A liberdade de circulação é restringida. * A intervenção de Atossa permite a reintrodução do saber no mundo grego. * Democedes obtém permissão para viajar. * Aproveita a missão para escapar. * Retorna a um centro intelectual ativo. * A chegada a Crotona insere Democedes num ambiente pitagórico. * A escola de Crotona associa medicina e investigação filosófica. * Os pitagóricos são eles próprios médicos. * A pesquisa do corpo e da alma é integrada. * A possível transmissão de uma fisiologia de origem indiana torna-se plausível nesse contexto. * Tal fisiologia é conhecida por Platão. * É compatível com interesses pitagóricos. * Pode ter sido mediada por médicos itinerantes. * A figura do filósofo arcaico emerge, assim, como nó de circulação intercultural. * Ele articula saber terapêutico, cosmologia e ética. * Opera em redes políticas e religiosas. * A filosofia nasce como prática móvel, híbrida e encarnada.