====== VI, 3 AS CATEGORIAS DE SENTIDO PRÓPRIAS DE PLOTINO ====== //Tratado 44// //BP// Os tratados 42, 43 e 44 formam um todo tanto do ponto de vista histórico quanto teórico. Se acreditarmos em Porfírio (Sobre a vida de Plotino e a ordenação de seus livros 5, 51-60), esses tratados foram, de fato, juntamente com o tratado 45, os últimos que Plotino compôs entre 263 e 268, datas que marcam o início e o fim de sua permanência na Escola em Roma. Chegou-se até a levantar a hipótese de que a dura crítica de Plotino contra Aristóteles nos tratados 42, 43 e 44 tenha sido a causa, em 268, da partida de Porfírio para a Sicília, o qual, sofrendo de “melancolia”, pensava em suicídio. Alguns meses depois, Plotino, gravemente doente (op. cit., 2, 1-23), deixa Roma rumo à Campânia, onde, antes de morrer, escreverá mais nove tratados (op. cit., 2 e 11). Os tratados 42, 43 e 44, que surgiram nessas circunstâncias difíceis, são todos dedicados às categorias, ou melhor, aos gêneros do ser. Após uma análise crítica do que Aristóteles e os estóicos disseram sobre o assunto (tratado 42), Plotino propõe uma descrição dos cinco grandes gêneros do Sofista de Platão (tratado 43) antes de questionar-se sobre as categorias do mundo sensível (tratado 44). Encontramos nesses três tratados uma descrição rigorosa da estrutura lógica e ontológica do sistema plotiniano, bem como uma tentativa de oferecer uma solução para a questão platônica fundamental: como dar conta da participação do sensível no inteligível? //[[https://classiques.uqam.ca/classiques/Plotin/Plotin.html|Plotin]]// Após estudar no Tratado II os gêneros do ser no inteligível, Plotino aborda no Tratado III a questão posta no capítulo I do Tratado I: o que há de comum e de diferente entre os gêneros do ser no sensível e os gêneros do ser no inteligível — entre gêneros de mesmo nome nesses dois planos há apenas homonímia e analogia. * O método empregado é muito diferente do método de classificação de Aristóteles e análogo ao usado nas pesquisas sobre o inteligível. * Imitando expressamente o método do Filebo (17 a-e), Plotino toma em seu conjunto a realidade sensível — o mundo — para apreender por intuição seus caracteres mais gerais. * Cinco gêneros são reconhecidos no sensível: a substância (caps. II-X), a quantidade (caps. XI-XV), a qualidade (caps. XVI-XX) e o movimento (caps. XXI-XXVIII). Plotino busca na substância sensível as analogias com a essência inteligível, mas indica primeiro uma maneira defeituosa de conceber essa analogia: ver a imagem dos cinco gêneros inteligíveis nos cinco elementos que Aristóteles distingue na substância. * Ao ser corresponderia a matéria; ao movimento, a forma; ao repouso, a permanência da matéria na mudança; ao mesmo e ao outro, a mudança das gerações e corrupções. * Semelhanças ilusórias: a forma não é ato da matéria como o movimento é do ser; ela é antes repouso e limite ao movimento da matéria. * O mesmo e o outro não são elementos da substância sensível, mas posteriores a ela. * A matéria, incessantemente móvel, não tem nenhuma permanência (cap. II). O capítulo III apresenta dificuldades assinaladas por Simplício: ele não trata apenas da substância, mas deduz os cinco gêneros primeiros do sensível (substância, relativo, quantidade, qualidade, movimento) a partir de uma classificação das qualidades sensíveis. * A classificação de partida distingue: matéria, forma, misto, o que se diz apenas dos sujeitos (como o relativo: duplo, metade, ser causa sem afetar o sujeito), e o acidente que efetivamente ocorre ao sujeito. * Os acidentes se subdividem em: acidentes nos quais estão os sujeitos (no lugar, no tempo), acidentes que estão nos sujeitos (qualidade e quantidade), atos e afecções dos sujeitos (movimentos) e acompanhamentos (lugar e tempo). * Aos três primeiros termos corresponde o gênero substância; ao quarto, o relativo; os três últimos gêneros — qualidade, quantidade, movimento — correspondem a duas das quatro espécies de acidentes, sem que Plotino forneça nenhuma razão para essa escolha. * Simplício observa com razão (342, 29): Plotino deveria ter mostrado que o tempo e o lugar são espécies da quantidade ou de alguma das cinco categorias, se não devem ser inteiramente banidos dos seres. O gênero da substância não deve ser buscado onde Aristóteles acreditava encontrá-lo: a matéria, embora comum a todas as coisas sensíveis, não pode ser gênero, pois não tem espécies; a forma ligada à matéria não pode ser gênero primeiro, pois há também uma forma não ligada à matéria (III, 6-19). * Se se chama substância à matéria, à forma e ao misto, é preciso dizer o que há de comum entre eles — ser um sujeito? Mas se a matéria é sujeito para a forma, a forma já não é ela mesma sujeito; além disso, o sujeito dos acidentes é o misto (homem) e não a forma (humanidade) (IV, 1-7). * O caráter comum poderia ser "não ser dito de outra coisa" — traço que pertence à forma, à matéria e ao misto (IV, 7-26). * Pode-se dizer também que os três são sujeitos, mas em sentidos diferentes: a forma completa a matéria, é em ato o que a matéria é em potência; os acidentes não acrescentam nada à essência (IV, 26-36). * Se a forma é atributo, como em "Sócrates é homem", é a título não de acidente, mas de parte integrante do sujeito (V, 1-23). * Os dois caracteres — ser sujeito e não ser dito de outra coisa — são comuns a toda substância, mas não lhe são próprios: encontram-se também na diferença específica, no tempo e no lugar (V, 23-35). * Para o tempo: ele está no movimento que mede ou na alma que o mede — portanto, "não poder ser dito de outra coisa" é propriedade da substância, mas, como Plotino havia dito no Tratado I (cap. III, 19-22), é apenas uma propriedade, e Aristóteles não chega a determinar a essência da substância. A substância só pode ser determinada pelo método intuitivo: ela é antes de tudo "ser" — o fogo não é substância nem por sua matéria nem por sua forma nem pela mistura dos dois, mas pelo ser tomado absolutamente, pois a quantidade e a qualidade também têm ser, mas um ser dependente do da substância (cap. VI). * Esse ser não vem às substâncias da matéria, que tem seu ser de outro lugar e tem menos ser do que as formas que estão nela. * À matéria, à forma e ao misto pertencem graus de ser muito diferentes, e entre esses três termos não se pode apreender nenhuma unidade. * Plotino não acredita, como Aristóteles, na unidade do ser sensível concreto — é preciso abandonar a análise peripatética em matéria, forma e misto para definir a substância sensível (cap. VII). Por intuição direta, toda substância sensível é um sujeito inseparável de suas qualidades — e, se se a despoja delas pelo pensamento, ela não é mais que matéria, isto é, sujeito completamente indeterminado. * A substância sensível é um simples "amontoado" de matéria e de qualidades (qualidades constituintes, das quais se devem distinguir as que se lhes acrescentam em seguida). * Essa análise parece ser o protótipo da famosa análise de Locke no Ensaio sobre o Entendimento humano. * Assim se acordam, quanto à substância sensível, o empirista — que não encontra a substância em nenhuma experiência — e o platonista — que a define como "uma sombra: sobre essa sombra, imagens" (cap. VIII). Na divisão do gênero substância em espécies, Plotino adota atitude crítica diante de Aristóteles quanto à distinção entre substâncias primeiras e segundas. * A diferença entre particular e universal existe tanto no gênero da qualidade quanto no da substância. * As substâncias ditas segundas (o homem em relação a Sócrates) não merecem esse nome: Sócrates tira a humanidade do homem em geral; não é mais substância do que o homem, pois, além do homem que está nele, só tem qualidades que o individualizam; é até menos substância, pois é forma numa matéria. * Como Aristóteles poderia fazer um gênero único de duas coisas tão diferentes quanto a "substância primeira" e a "substância segunda"? (cap. IX). A divisão dos elementos segundo as quatro qualidades ativas — quente, frio, seco, úmido — proposta por Aristóteles no Da geração (liv. II, cap. II) é questionada: por que essas quatro e somente essas? * Plotino não acredita na possibilidade de uma classificação dos corpos por suas qualidades ativas, cujas combinações variam ao infinito. * Quando se distinguem corpos compostos de corpos simples, não se conhece a composição dos primeiros; sabe-se apenas que são compostos, e os distinguimos apenas pela forma ou pelo lugar. * Plotino coloca em evidência a ausência de uma classificação química — ou alquímica — dos corpos pelas propriedades ativas elementares, muito diferente das classificações grosseiras e incompletas de Aristóteles (cap. X). Os capítulos sobre a quantidade consistem sobretudo em observações críticas ao texto de Aristóteles. * Plotino aceita a classificação das quantidades em descontínuo (número) e contínuo (grandeza) — mas apenas quanto ao número e à grandeza que estão nas coisas sensíveis; há um número em si e uma grandeza em si que não são quantidade. * Aristóteles havia colocado na quantidade o lugar e o tempo (Cat., IV, 4 b 24-25; 5 a 6-14) — Plotino os coloca nos relativos. * Aristóteles havia excluído da quantidade o grande e o pequeno, colocando-os nos relativos, mencionando "um grande grão de milho" e uma "pequena montanha" (VI, 5 b 15-20) — Plotino mostra que "pequeno e grande" são tomados aí por "menor e maior", e que com o mesmo argumento se faria do belo um relativo (cap. XI). * Aristóteles havia deduzido que grande e pequeno não são contrários por serem relativos (Cat., VI, 5 b 27-29) — Plotino, restituindo-os à quantidade, admite que são contrários e que há, portanto, contrários na quantidade. * Em sentido inverso, colocando o lugar nos relativos, Plotino nega os contrários (alto e baixo etc.) que Aristóteles havia afirmado — o que é condição para que a física aristotélica ceda lugar à física moderna. * Aristóteles havia colocado na quantidade o "discurso" feito de palavras sucessivas à maneira do número — Plotino o exclui e o restitui ao movimento (cap. XII). Aristóteles não fornece nenhuma indicação sobre as espécies do descontínuo e, nas espécies do contínuo, coloca a linha, a superfície e o sólido — Plotino primeiro lhe dá razão do seu próprio ponto de vista e depois o corrige. * Aristóteles havia dito que há nos números anterior e posterior e que os números não podem ser espécies de um gênero comum — o mesmo argumento deveria aplicar-se à série das grandezas de uma, duas e três dimensões. * Mas o Fédon ensinou a Plotino que os números não são engendrados por adição, mas que existe, antes da adição, uma díade, uma tríade etc. — o que é, a fortiori, verdadeiro das grandezas citadas por Aristóteles, que são portanto três espécies de um gênero comum. * Essas espécies se dividem por sua vez nas espécies de linhas, figuras planas e figuras sólidas (cap. XIII). * Aristóteles havia excluído a reta das grandezas e colocado o reto e o curvo nas qualidades (Cat., VIII, 10 a 15) — Plotino observa que a retidão pode ser qualidade e a linha reta pode ser quantidade, pois mesmo as espécies da substância tomam suas diferenças específicas das qualidades. * Aristóteles negava que o triângulo, espécie da figura plana, seja quantidade, definindo-o não como três linhas mas como "certa disposição de três linhas", e o colocando na qualidade — argumento que valeria para a reta definida por Euclides por certa disposição de pontos, e para todas as figuras, o que levaria à consequência paradoxal de que a geometria é ciência de qualidades (cap. XIV). Aristóteles havia escrito que o próprio da quantidade é o igual e o desigual (Cat. VI 6 a 26-27) e o próprio da qualidade é o semelhante e o dessemelhante (VIII, 11 a 18-19) — as observações de Plotino sobre esse ponto são algo confusas. * Plotino havia objetado no Tratado I (cap. V, 22-23) que se fala de triângulos e em geral de figuras semelhantes; e responde ele mesmo que o semelhante poderia ter um sentido diferente na quantidade e na qualidade. * O próprio não pode servir de predicado senão ao gênero do qual é próprio — o semelhante não pode mais ser o próprio da qualidade. * Daí a questão aparentemente inesperada: o semelhante é realmente o próprio da qualidade? A resposta sugere que a substância sensível no fundo não é senão qualidade — o que implicaria que a qualidade não pode ter um próprio, por se confundir com a substância. Os capítulos sobre a qualidade têm o mesmo caráter fragmentário e desconexo que os capítulos sobre a quantidade. * A questão retomada no capítulo XVI — se as qualidades daqui e as qualidades de mesmo nome no mundo inteligível (inteligência, sabedoria, virtude) pertencem à mesma classe — é o problema da participação, resolvido por uma teoria da razão seminal, intermediária entre o inteligível e o sensível e encarregada de fazer irradiar até o sensível o esplendor do inteligível. * A qualidade que está na razão não está nem no sensível nem no inteligível, mas no movimento da razão em direção a cima ou a baixo: quando a razão inclina para baixo, pode-se chamá-la qualidade sensível — assim a arte do citarista só se realiza nas cordas de seu instrumento. * Platão, no livro VII da República, distingue uma aritmética inteligível e uma aritmética que opera sobre as coisas sensíveis. * Há virtudes que se estendem até a realidade sensível: as virtudes políticas ou práticas (XVI, 27-31). * As qualidades sensíveis, definidas como última expressão das razões nos corpos, não são elas mesmas corpos — a razão seminal pode assim se manifestar nos corpos sem que a alma como substância cesse de estar na realidade inteligível (cap. XVI). A classificação das qualidades em qualidades da alma e qualidades do corpo — e, dentre as qualidades corporais, segundo os sentidos — oferece um problema que conduz a visões profundas sobre as qualidades. * Há duas regras essenciais na formação das espécies: a diferença específica não deve nunca pertencer ao mesmo gênero de ser que o gênero ao qual se acrescenta; e a diferença específica é sempre tomada na qualidade. * Da primeira regra segue que o gênero qualidade deveria ter diferenças específicas tomadas em outro gênero; da segunda, que só pode tomá-las na qualidade — portanto, toda classificação de qualidades por gênero e espécie é impossível. * Distinguir as qualidades pelos órgãos em que residem, pelas combinações de matérias que as acompanham ou pelas ações que exercem não é distingui-las em si mesmas; as únicas ações conhecidas diretamente são as exercidas pela alma, como as ciências. * Resulta disso a impossibilidade de responder à questão simples: em que o branco difere do negro? (cap. XVII). Quando se trata de distinguir nuances como o verde-tenro e o amarelo-pálido, é preciso contentar-se com um puro sentimento de distinção dado na sensação, insuscetível de dar razões. * É assim que a inteligência intuitiva distingue imediatamente o movimento do repouso: nos dois extremos do conhecimento, sensação e inteligência apreendem seus objetos sem discurso nem análise (cap. XVIII, 1-14). * A diferença é sempre uma qualidade, e inversamente a qualidade é sempre uma diferença — isso é verdadeiro das qualidades sensíveis, das qualidades adquiridas como gramático, e das qualidades naturais. * A diferença nunca é oriunda do gênero do qual é diferença — mas Plotino contesta que a disposição seja ainda qualidade, provavelmente porque a qualidade deve estar em ato. * As virtudes são distinguidas por elas mesmas, mas só podem ser distinguidas no discurso pela diferença dos objetos a que se atribuem, não pela diferença de suas qualidades (cap. XVIII). Aristóteles havia colocado nas qualidades os paronímicos das qualidades propriamente ditas, o branco ao lado da brancura (Cat., VIII, 10 a 27-29) — Plotino resolve a questão negativamente: o branco só faz parte da qualidade porque uma qualidade lhe pertence (XIX, 1-4). A expressão "não branco" pode designar: uma cor diferente do branco (e é então, como o branco, uma qualidade); a simples negação do branco (e é então apenas um som, portanto um movimento); ou o conjunto dos objetos que não são brancos (e é então um nome ou um discurso que designa objetos, portanto um relativo). * A teoria das categorias classifica objetos, não palavras ou expressões que os designam. * As categorias, admitindo apenas termos simples como diz Aristóteles (Cat., IV, I b 25), não consideram afirmações e muito menos negações. * A privação é qualidade apenas no caso em que é privação de qualidade (XIX, 15-18). Plotino reproduz a distinção de Aristóteles (Cat., VIII, 9 a 28-33) entre qualidades passivas permanentes (como a palidez da doença) e paixões ou emoções passageiras (palidez do medo) — mas não reconhece inteiramente as seguintes palavras de Aristóteles: "o vermelho que deriva de estados facilmente destruídos é uma paixão, não uma qualidade". * Isso é verdadeiro de enrubescer, mas não de vermelho, que é uma qualidade qualquer que seja sua duração (XIX, 25-33). * O desenvolvimento sobre as qualidades passivas é interrompido por uma indicação de duas linhas (XIX, 24-25) sobre os advérbios — como bem — que Aristóteles coloca na qualidade. Aristóteles havia escrito que há qualidades sem contrários: "nenhum contrário, por exemplo, para o amarelo, o verde-pálido ou cores desse gênero" (Cat., VIII, 10 b 15-18) — Plotino o critica antes de lhe dar razão no fundo. * Essas nuances não têm contrário, parece dizer Aristóteles, porque são intermediárias entre os extremos branco e negro — mas Aristóteles admite que a virtude, sendo um meio-termo, tem um contrário no vício; deveria dizer que não têm contrários porque são intermediários compostos dos extremos branco e negro. * Se essas cores são mistos, só restam o branco e o negro, e não há mais máximo de diferença; mas, se se confia na sensação imediata, entre o amarelo e o branco há a mesma diferença absoluta, não mensurável, que entre o negro e o branco. * Os contrários não devem ser definidos pelo máximo de diferença, pois há casos em que não há intermediários entre eles — como saúde e doença — ou onde esses intermediários não têm diferença mensurável. * Não há contrários de modo algum nas cores, pois os contrários são duas espécies de um mesmo gênero e é impossível construir espécies da cor (cap. XX). * Aristóteles havia escrito que as qualidades admitem em geral o mais e o menos, mas com exceções como a justiça, a saúde e outras disposições (Cat., VIII, 10 b 26-32) — Plotino distingue a justiça inteligível, que não admite graus, da justiça como disposição, que recebe o mais e o menos (cap. XX, 39-42). Plotino inova ao introduzir o movimento entre os gêneros do ser no sensível, e marca a distância entre sua noção do movimento e a de Aristóteles, pondo-se três questões: o movimento é redutível a um gênero do ser? Tem um gênero superior? Quais são suas espécies? * O movimento é independente de todas as categorias, em particular da do relativo (cap. XXI, 1-21). * Aristóteles, na Física (225 a 20-34), fazia do movimento e da geração duas espécies distintas do gênero mudança — Plotino contesta que sejam espécies distintas: a geração, para ser uma mudança, deve primeiro ser movimento. * Afirmar que a geração é movimento não é retornar às antigas teorias — condenadas com razão por Aristóteles — que reduziam a geração à alteração e ao crescimento (XXI, 21-40). * A mudança seria antes uma espécie de movimento, redutível à alteração (cap. XXI). O movimento não pode ser definido: apreende-se intuitivamente como progresso em direção à forma (na fabricação de uma estátua) ou como forma despertada e vida dos corpos (na marcha) — mas isso não é defini-lo (XXII, 2-21). * Se o movimento nem sempre é progresso em direção a uma forma, mas também em direção ao pior, é preciso considerar o movimento em si mesmo e não em seus resultados, que dependem da natureza dos sujeitos que o recebem. * O movimento é, no sensível, a imagem do outro inteligível; começa e termina com a alteridade e comunica ao tempo a incessante alteridade que é seu caráter (cap. XXII, 21-50). * O movimento é o fantasma de vida que impede a completa inércia do sensível; potência invisível apreendida não em si mesma, mas porque se vê o móvel em lugares diversos em tempos diferentes; retira sua natureza e sua força do motor do qual deriva, mas, emanando do motor, não está mais no motor do que no móvel (cap. XXIII). As espécies do movimento não são tratadas em seu conjunto: Plotino critica primeiro a teoria aristotélica das espécies do movimento local. * Conforme o espírito platonista encontrado no Tratado II, Plotino quer ver apenas diferenças acidentais nas diversas direções do movimento — retilíneo ou circular, para cima ou para baixo (cap. XXIV). * A composição e a dissolução não se enquadram em nenhuma das quatro espécies de movimento (geração, alteração, crescimento, transporte local) distinguidas por Aristóteles: a composição começa, como o crescimento, por um movimento local, mas termina por uma mistura que é coisa totalmente diferente (cap. XXV, 358, 1-24). * Poder-se-ia ser tentado a reduzir a alteração a combinações ou dissoluções — Plotino tem em vista uma doutrina que explicaria as mudanças de qualidade por combinações ou decomposições mecânicas; isso destruiria a existência mesma das qualidades; a alteração permanece, portanto, uma espécie irredutível (cap. XXV, 24-41). * Plotino indica vários modos de divisão do movimento local que podem também ser empregados na divisão das três outras espécies de movimento (cap. XXVI). No inteligível, Platão admite ao lado do gênero do movimento um gênero distinto: o repouso — mas o mesmo não se aplica ao sensível. * No sensível, o repouso é simples cessação do movimento, simples negação. * Se, como diz Aristóteles (Física, 238 b 25), a imobilidade é a cessação de um móvel ainda em movimento, ela então pertence ao gênero do movimento. * Se é ausência completa de movimento — além de se poder questionar se tal coisa existe no mundo sensível — não se pode admitir que uma negação seja um gênero. * O repouso é algo positivo, não é o movimento que é negação do repouso. * Não se deve concluir que, sendo negação no sensível, o repouso não deve ser gênero inteligível: no inteligível, o repouso é termo positivo. * Não se deve confundir nas coisas sensíveis o repouso — simples privação do movimento — com o ato que está ao término de um movimento, como a saúde que encerra a cura (cap. XXVII). * Plotino encerra com observações muito breves sobre o agir e o padecer — que pertencem ao movimento — e sobre dois modos possíveis de classificação dos relativos (cap. XXVIII). //BCG57// As categorias do mundo sensível são, por analogia, as mesmas ou diferentes das do mundo inteligível? Problemas de classificação no mundo sensível (cap. 1). A substância sensível: matéria, forma e composto; as categorias inteligíveis platônicas não podem ser aplicadas, nem mesmo por analogia, à substância sensível (cap. 2). Continua o debate sobre a matéria, a forma e o composto: relação das outras categorias com ele. Sete, cinco ou talvez apenas duas categorias do mundo sensível? (cap. 3). O que a matéria, a forma e o composto têm em comum para serem colocados na categoria de «substância»? (cap. 4). Substância e substrato (caps. 4-5). O que significa “é” no mundo sensível? (cap. 6). Não importa de quem as coisas d’este mundo derivam seu ser (cap. 7). A substância sensível como uma combinação de qualidades e matéria (cap. 8). Como deve-se dividir o gênero “substância sensível” em espécies? (caps. 9-10). A quantidade no mundo sensível (cap. 16-20). O movimento no mundo sensível (cap. 21-26). A quietude no mundo sensível deve ser distinguida da categoria platônica de Repouso no inteligível (cap. 27). Conclusão do índice, com algumas notas sobre a Relação (cap. 28). //APE// Em VI. 3, Plotino retorna do mundo inteligível ao mundo sensível e faz o possível para dotá-lo de um conjunto adequado de categorias platônicas. Sua atitude em relação a Aristóteles, neste ponto, torna-se bastante mais positiva, e esta parte da obra é mais uma adaptação crítica do que uma refutação da doutrina peripatética. Mas ele tem dificuldade em chegar a conclusões certas e é mais impreciso e menos dogmático do que de costume. Isso fica particularmente evidente nas últimas oito linhas do Capítulo 3, onde ele sugere, embora não aprofunde a sugestão, que talvez possamos nos virar aqui na terra com apenas duas categorias, a quase-substância e a relação, e nas últimas palavras do Capítulo 27, de um agnosticismo bastante impaciente. Podemos ver claramente neste tratado como um platônico, que, seguindo o Timeu, não acredita que seja possível qualquer conhecimento certo e imutável do mundo sensível, pode ser muito mais aberto e não comprometido com qualquer explicação particular sobre a natureza e a estrutura das coisas materiais do que um aristotélico, que, embora ainda acredite que o conhecimento certo e imutável seja possível, deve encontrar seus objetos predominantemente no mundo sensível. (Apenas Substância, Quantidade, Qualidade, Movimento e, incidentalmente, Relação são discutidos em VI. 3. É possível, mas não certo, que Plotino pretendesse continuar com uma discussão mais completa de outras categorias além das observações resumidas no último capítulo.) //LPE// 6.3 (44) passa a aplicar as lições de 6.2 às coisas que vêm a ser. O que o devir tem em comum com o ser? Existem, analogamente, os mesmos gêneros, primariamente no ser e, secundariamente, no vir a ser. A §2 passa a argumentar contra uma visão aristotélica do que é comum entre os gêneros maiores e a substância aristotélica. A §3 tenta deduzir os cinco gêneros primários aplicáveis ao devir: substância, relações, quantidade, qualidade e movimento. Os capítulos seguintes discutem esses cinco gêneros: substância §§4–10, quantidade §§11–15, qualidade §§16–20, movimento §§21–27, relativos §28. Capítulo 1: Gêneros do físico são diferentes daqueles do inteligível * O mundo deve ser estudado, assim como se analisaria a voz * Devemos primeiro dissecar a alma do corpo, para examiná-la Capítulo 2: O que é ser no inteligível é geração no mundo dos sentidos * Podemos analisar este mundo por analogia com o inteligível? Capítulo 3: Categoria físicas são matéria, forma, combinação, atributos e acidentes * As três primeiras categorias físicas: matéria, forma e combinação * Diferentes categorias físicas * Cinco categorias físicas * Ser é aquilo que é predicado de nada mais Capítulo 4: Ser dos sentidos * Ser físico é o princípio de todas as outras coisas Capítulo 5: Relação entre físico e inteligível, termos são meramente verbais * Ser físico é aquilo que não é sujeito * Todas as outras categorias físicas referem-se a matéria, forma e combinação Capítulo 6: Ser retira sua existência do inteligível Capítulo 7: Ser não pode ser designado à matéria, que deriva seu ser do inteligível * Essências diferem de acordo com a participação na forma Capítulo 8: Diferença entre matéria e forma devidas àquela das das entidades inteligíveis das quais dependem * Sentidos do ser consistem na reunião de qualidades e matéria Capítulo 9: Classificação de corpos * Seres primários e secundários não são divididos por nenhuma diferença substancial Capítulo 10: Corpos podem ser classificados não apenas pelas formas, mas pelas qualidades, etc. * Corpos são classificáveis de acordo com formas específicas Capítulo 11: Definição de quantidade * Grande e pequeno são concepções pertencentes à quantidade * Beleza é classificada junto com os relativos Capítulo 12: Quantidade admite contrários (polêmica com Aristóteles * Como a multitude é classificada com os relativos * Não há contrário para sítio * Classificação de sílabas e fala Capítulo 13: Quantidade discreta bastante distinta de quantidade contínua * Elementos de quantidade contínua * Estudo de figuras geométricas Capítulo 14: Estudo da linha reta * Estudo do triângulo Capítulo 15: Geometria estuda quantidades, não qualidades * Diferenças que completam o ser devem ser prefixadas àquilo a qual se referem * Se apenas a qualidade pode ser chamada similar ou dissimilar Capítulo 16: Os vários termos expressando qualidade * A razão seminal harmoniza com sua atualização de aparência * Muitas outras concepções pertencentes às qualidades de sentidos * Apesar desta classificação a alma ela mesma permanece incorpórea Capítulo 17: Qualidades são classificadas como corpóreas e da alma * Diferenças de ser deveriam ser distinguidas de acordo com qualidade * Diferença de qualidade não pode ser distinguida pela sensação * Diferença em efeitos é limitada aos inteligíveis Capítulo 18: É absurdo distinguir ser, qualidades e diferenças em si mesmos * Algumas qualidades são diferenças * Há diferenças que não são qualidades Capítulo 19: Vários derivativos da categoria de qualidade Capítulo 20: Contrário não é a maior diferença possível * Contrários são aquelas coisas que faltam semelhança * Qualidades admitem grau Capítulo 21: Razões porque o movimento é uma categoria * Movimento não pode ser reduzido a nenhum gênero superior * É a mudança anterior ao movimento? Capítulo 22: Definição de alteração * Movimento como uma forma de poder * Movimento é forma ativa e causa de outras formas * Questões sobre movimento * Elemento comum em crescimento, aumento e geração Capítulo 23: Movimento de objetos dos sentidos * Movimento como influxo Capítulo 24: Movimento como deslocamento é simples Capítulo 25: Explicação da composição e decomposição * Composição e decomposição não são alterações Capítulo 26: Movimentos divididos em natural, artificial e voluntário Capítulo 27: Distinção entre estabilidade e quietude * Movimento é mais do que a negação do repouso * No inteligível a estabilidade não implica em quietude Capítulo 28: Conclusão do estudo ---- {{indexmenu>.#1|tsort nsort nocookie}}