====== Enéada V, 1 ====== ==== Jesús Igal ==== Na ordem cronológica das obras de Plotino estabelecida por Porfírio, o presente tratado ocupa o décimo lugar, depois do grande tratado sobre o Um. Temos aqui uma clara demonstração de como Plotino une firmemente o pensamento metafísico e a vida espiritual pessoal. Como bem indica o título, o tratado trata das três realidades que Plotino chama de hipóstases principais: a Alma, a Inteligência e o Um, em ordem ascendente. As observações de Plotino pretendem apontar as diferenças e relações entre elas, embora às vezes suas características pareçam um pouco obscuras. Não se trata tanto de anotações de aula para a compreensão de um sistema filosófico, mas sim de uma amostra autêntica do caminho da mente para Deus, que exige uma aceitação de sua verdadeira natureza e dignidade. É simplesmente um guia para o estudioso em sua ascensão rumo ao seu fim último. Com uma força que não se encontra em nenhum outro lugar das Enéadas, Plotino explica nos dois primeiros capítulos, com traços espetaculares, a alienação da alma e o esquecimento de si mesma aqui em baixo. Em seguida, mostra-se como, ao retornar ao verdadeiro conhecimento de sua natureza como alma, a encontramos transcendendo a Inteligência e o Um ou Bem, e vemos assim como o Bem tem que transcender e gerar a Inteligência. Os capítulos 8 e 9 são provavelmente uma digressão destinada a demonstrar que se está seguindo a autêntica doutrina de Platão, contra algumas opiniões da época. Nos últimos três capítulos, lembra-se como a alma pode encontrar a Inteligência e o Um dentro de nós. Termina com uma exortação para não se distrair com as vozes mundanas e superficiais e para se concentrar internamente nas vozes do alto. === SINOPSE === I. As almas, em seu desejo de pertencer a si mesmas, esqueceram sua própria natureza e seu Pai. Isso as levou a uma alienação e desprezo próprio, com uma admiração pelas coisas materiais. Há dois caminhos para levá-las de volta a Deus: a) Convencer-se de que as coisas materiais são desprezíveis. b) Lembrar à alma sua origem divina e seu valor. A alma precisa se convencer de que é capaz de conhecer coisas maiores (cap. 1) II. Quando a alma se libertar da ilusão e alcançar a verdadeira paz, verá a verdadeira alma (à qual se assemelha) que dá luz, vida e beleza ao mundo. Este não tem valor sem a alma que faz girar os astros, dando divindade ao sol e aos demais corpos celestes (cap. 2). III. Quando se compreende a natureza da alma, passa-se para o estágio seguinte no caminho para Deus e compreende-se a Inteligência (vizinha superior da alma). Então se vê como a alma é uma imagem da Inteligência, depende dela e é aperfeiçoada por ela (cap. 3) IV. A Inteligência é o arquétipo do universo visível, como expressou Platão no Sofista (cap. 4). V. A Inteligência é produto do Um. Dessa forma, o número (e o Um em outro sentido) é quem dá estrutura à Inteligência (cap. 5). VI. O Um produz a Inteligência sem qualquer movimento ou separação de si mesmo, como uma radiação de sua perfeição. A Inteligência se mostra como a unidade perfeita na diversidade do mundo inteligível, quando retorna ao Um. Dessa forma, ela produz a Alma (cap. 6 e 7). a) Confirmação: Esta é a verdadeira doutrina ensinada por Parmênides e aperfeiçoada por Platão (cap. 8). Em essência, Anaxágoras, Heráclito e Empédocles estão de acordo. b) Crítica de Aristóteles: ele concebe o primeiro princípio separado e inteligível; comete o erro de mostrar uma Inteligência que se concebe a si mesma. Dessa forma, introduz uma incoerência no mundo inteligível com a doutrina da pluralidade dos motores imóveis (cap. 9). c) Refutação: a Alma, a Inteligência e o Um encontram-se em nosso interior. VII. Exortação final: voltar ao interior e ouvir as vozes do alto. ---- {{indexmenu>.#1|tsort nsort nocookie}}