====== IV, 8 SOBRE A DESCIDA DA ALMA NO CORPO ====== //[[trt>6:|Tratado 6]]// //BP// * No tratado 6, Plotino coloca a questão da relação entre alma e corpo: como é possível que dois elementos de naturezas heterogêneas, uma sensível e outra inteligível, venham a formar juntos uma comunidade. * Para responder, é preciso antes identificar uma forma pura da identidade da alma, independente de sua relação com o corpo, o que revela por contraste a estranheza e incongruência da situação da alma associada ao corpo. * O rapport da alma ao corpo se define como uma descida (katabas) que marca o distanciamento entre o destino primeiro da alma no inteligível e sua condição atual ligada ao corpo sensível. * A abertura do tratado, um dos trechos mais célebres da obra plotiniana, assume a função de desvelamento da forma inteligível da alma: Plotino descreve o despertar de si mesmo ao sair do corpo e retornar ao interior de si, contemplando uma beleza de força admirável, e afirma que esse é um destino superior a todos os outros. * A partir daí, Plotino coloca o problema central do tratado: a descida da alma no corpo deve ser compreendida no quadro de uma necessidade cosmológica, onde cumpriria a função de completar a produção do universo, ou é apenas fruto de uma iniciativa individual e voluntária? ---- * Plotino aborda o problema apoiando-se em referências filosóficas da tradição, citando desde o primeiro capítulo Heráclito, Empédocles, Pitágoras e Platão, mas conservando originalidade e liberdade irredutíveis na exploração que delas faz. * A tradição não é para Plotino um meio homogêneo, mas uma estrutura que ele hierarquiza rigorosamente: Heráclito, Empédocles e Pitágoras falam por enigmas e no modo da poesia, enquanto Platão deve fornecer matéria para se pensar algo claro. * Plotino recorta os sentidos das expressões tomadas de Heráclito e Empédocles de seus contextos próprios, integrando-as em sua estrutura própria de pensamento, de modo que a lógica interna de seu raciocínio é que conforma a compreensão desses autores. * Plotino organiza suas referências a Platão segundo dois eixos: uma concepção pessimista da descida da alma como queda ou aprisionamento, à qual se vinculam o Fédon, a República e o Fedro; e uma concepção segundo a qual a descida aperfeiçoa a produção do universo, à qual se vinculam os textos do Timeu. * A tensão entre os dois eixos se resume em: ou a descida é imputável à responsabilidade da alma, que sofre as consequências de uma falta cometida, ou é resultado de uma necessidade cosmológica, isentando a alma de toda responsabilidade. * Para resolver essa tensão, duas vias se oferecem a Plotino: introduzir na hierarquia do sistema a diferença entre as almas individuais e os outros tipos de almas; e redefinir os rapports entre os conceitos de voluntário (hekousion) e necessário (anagkaion) aplicados à descida da alma. ---- * Ao longo do tratado 6, Plotino afirma com nitidez que a identidade da alma é definida por seu caráter dual: sua capacidade de residir aqui, no sensível, permanecendo ao mesmo tempo lá, no inteligível, com uma parte inferior orientada ao corpo e uma parte superior orientada ao Intelecto. * No sistema plotiniano distinguem-se três níveis de almas: a Alma total ou Alma universal, unidade original de todas as almas considerada em sua intimidade com o Intelecto e sem nenhuma relação com o corpo, sendo a única sem estrutura dual; a alma do universo, que governa a totalidade do corpo do mundo; e as almas dos viventes individuais, que concentram sua atividade em um corpo particular. * A distinção entre Alma universal e alma do universo nem sempre é rigorosamente mantida em certas passagens do tratado 6, como no capítulo 8, 13. * A diferença radical entre o rapport aos corpos das almas individuais e o das almas dos astros e da alma do universo é a chave da estratégia plotiniana: enquanto a alma do universo permanece impassível e indiferente ao corpo que governa, a alma individual padece do rapport ao corpo ao qual está ligada, sendo contaminada por ele. * Essa distinção permite a Plotino evitar identificar o mal ao conjunto do mundo corporal e refutar já no tratado 6 o desprezo generalizado professado pelos gnósticos em relação ao universo sensível, inscrevendo o tratado na continuidade de um otimismo cosmológico presente também nos tratados 1 e 3. ---- * A alma individual é contaminada em seu rapport ao corpo não por causa da qualidade deficiente do corpo individual, mas por causa da matéria, princípio de indeterminação que impede o sensível de ser totalmente submetido à influência do inteligível. * As almas individuais, isoladas e dispersas no mundo sensível, sofrem em primeira instância essa influência da matéria, enquanto a alma do universo, totalmente unificada e próxima do inteligível, dela se encontra preservada. * No capítulo 6, Plotino precisa que nada impede qualquer coisa de participar da natureza do bem na medida de sua capacidade receptiva, sendo a privação efeito de uma limitação interna às próprias coisas, e não da matéria como princípio negativo, como ocorrerá em tratados ulteriores, como o tratado 51, Sobre a origem dos males. * A matéria explica os efeitos da descida, ou seja, a contaminação e o sofrimento da alma em seu rapport ao corpo, mas não o movimento primeiro que está na origem da descida; no linguajar do mito, explica a punição da alma (dike), mas não sua falta (hamartia). ---- * A distinção entre a alma do universo e as almas individuais apenas oferecia uma resposta provisória ao problema da descida, pois a alternativa entre necessidade universal e responsabilidade individual se coloca de modo crucial no interior da própria alma individual. * O capítulo 5 oscila aparentemente entre expressões que apontam para a responsabilidade individual, como a alma que se dirige ao corpo de seu próprio movimento ou por livre inclinação, e a afirmação do caráter necessário da produção dos corpos em virtude de uma lei eterna da natureza. * A chave da resolução é dada por Plotino no início do capítulo 5: não há contradição entre a necessidade e o voluntário, pois o voluntário está compreendido na necessidade. * A necessidade não é uma coerção externa, mas a expressão da própria natureza da alma herdada do princípio superior; e o caráter voluntário da descida não se confunde com capacidade de escolha, mas se define pela adesão ao que constitui o cerne de sua identidade: uma alma que não descesse apenas se negaria a si mesma. * A alma desce portanto voluntariamente, pois não sofre nenhuma coerção e apenas segue sua própria natureza, e necessariamente, pois se integra assim ao movimento de conjunto que aperfeiçoa o universo. ---- * A recusa de abandonar a descida da alma ao arbítrio individual e a afirmação de sua submissão à necessidade que rege o universo permitem a Plotino integrar na inteligibilidade global do cosmos os corpos produzidos pelas almas individuais. * A abordagem do corpo no tratado 6 contrasta com a imagem difundida da filosofia plotiniana como desprezo do sensível: o corpo assume no sistema duas funções essenciais. * A primeira é responder a um princípio de expansão positiva: a produção do corpo prolonga a potência generosa de manifestação de si, que é a própria vida e tem sua origem no Uno, sendo uma potência indizível que está no princípio superior e não deve se imobilizar como que limitada pela inveja. * A segunda é que o corpo revela a alma, desdobrando na visibilidade o que na alma teria existido em vão sem essa manifestação: Plotino afirma que a alma só chega ao conhecimento de si mesma graças ao desdobramento de sua essência na forma corporal, pois sem o corpo a alma não poderia ser inteligível a si mesma. * A conclusão do capítulo 6 sintetiza essas duas funções: o que há de mais belo no sensível é a manifestação das melhores coisas do inteligível, de sua potência e de sua bondade, e tudo é solidário para sempre, as realidades inteligíveis e as realidades sensíveis. Plotino já havia abordado brevemente o problema da descida da alma em IV 7, 13, apresentando-o como um fato paradoxal. No presente tratado, cronologicamente o sexto (Vida 4, 32), o paradoxo é duplo: primeiro surge do contraste entre a natureza divina da alma, sentida como divina em uma experiência íntima e não mais conhecida apenas especulativamente, e sua descida ao corpo; segundo surge da dupla série de textos de Platão, uns pessimistas e outros otimistas, a respeito da vinda da alma ao cosmos. Ao longo do tratado, Plotino se esforça para mostrar que a aparente confusão decorre da própria complexidade do problema, que não admite uma solução simplista nem deve ser analisado unilateralmente, mas em todos os seus aspectos. Esses aspectos são: 1) a necessidade da procissão, desde o Um até a matéria, e da participação de todas as coisas no Bem; 2) a natureza intermediária da alma, na fronteira entre o inteligível e o sensível, que a obriga a se relacionar com ambos os mundos; 3) a diversidade de graus de perfeição nas almas, embora todas compartilhem a mesma essência; isso, aliado à diversidade dos respectivos corpos, explica a diversidade de comportamentos; 4) a diversidade de níveis na descida da alma: um é a “presença” no cosmos da Alma do cosmos, outro é a “queda” da alma particular em um corpo individual e, por fim, outro é sua “imersão” no mal; 5) finalmente, a diversidade de níveis psíquicos: em toda alma, mesmo na alma humana, há um nível indescendente e proeminente, pelo qual mesmo a queda da alma humana nunca é total1. Apesar das explicações de Plotino, não é fácil ver, no entanto, como a mera descida de uma alma particular a um corpo individual pode ser qualificada de “delito” imputável e merecedor de castigo, ao mesmo tempo que resultado forçado de uma lei inexorável. De fato, nos tratados médios e tardios, a concepção radical da descida como delito já não volta a surgir. ---- {{indexmenu>.#1|tsort nsort nocookie}}