====== IV, 7 SOBRE A IMORTALIDADE DA ALMA ====== //[[trt>2:|Tratado 2]]// * O segundo tratado de Plotino trata da alma, objeto de predileção da tradição filosófica antiga, que a considerava condição para a definição do homem, da vida humana, do estudo dos seres vivos e da explicação do mundo. * Plotino permanece fiel a seus predecessores, especialmente aos platônicos, ao inscrever a investigação sobre a alma na confluência de questões éticas, biológicas e cosmológicas, mas acentua ainda mais sua importância por razões próprias à sua doutrina. * A alma é o ponto nodal de sua representação ordenada da realidade: é o termo da procissão que, partindo do Uno e passando pelo Intelecto, se conclui com ela, e aquém da alma nada pode ter realidade em sentido estrito. * Os produtos da alma que são os corpos e as coisas sensíveis existem apenas enquanto uma alma os informa e anima. * O segundo tratado, assim como os tratados 4 (IV, 2) e 21 (IV, 1) que lhe dão continuidade, trata essas questões apenas parcialmente, cabendo a obras posteriores aprofundá-las, sobretudo os três tratados Sobre as dificuldades relativas à alma, 27 a 29 (IV, 3 a 5). * Aqui, Plotino parece preocupado em tomar posição num debate escolar, passando em revista e refutando as definições contemporâneas da alma mais estabelecidas, num tom geral e doxográfico. ---- * Plotino pretende justificar a hipótese platônica segundo a qual é a alma que define o homem, e a hipótese subsequente de que o corpo é instrumento da alma imortal que o governa, conforme Platão escrevia no Alcibíades. * A alma, sendo o que somos propriamente, é imortal, o que a distingue de imediato do corpo. * O erro comum e principal dos atomistas, como Epicuro e seus partidários, e dos estoicos foi querer definir a alma como um corpo, tornando impossível explicar a vida e as principais funções de todo ser vivo: locomoção, sensação e pensamento. * Após passar em revista as incoerências doutrinárias das filosofias epicurista e estoica nos capítulos 3 a 83, e afastar brevemente as definições pitagórica e aristotélica da alma, Plotino conclui pela natureza incorpórea, imortal e inteligível da alma. * Plotino retoma a lição platônica do final do Fédon (102a-105e) e da República (X, 608c-612a): a alma é essencialmente viva e não pode ser sujeita à morte. * A alma é definida como realidade autárquica, que não precisa de nada além de si mesma para viver e cuja existência é inteiramente independente do corpo, verificando assim, como o Uno e o Intelecto, o axioma de que uma realidade verdadeira é causa de sua própria existência. * A alma produz o corpo e dele cuida, pois ele não se basta a si mesmo; mas ela não informa imediatamente a matéria, introduzindo Plotino, recusando o paradigma artesanal medioblatonicien do demiurgo, um intermediário: as razões ou fórmulas racionais (logoi) que, derivadas da alma, avançam na matéria para informá-la. * A cosmologia e a física plotinianas repousam na tripla distinção entre a matéria perfeitamente indeterminada, os corpos formados pelas razões da alma e a própria alma, causa do sensível em sua totalidade. ---- * A refutação minuciosa e técnica dos capítulos 3 a 83 examina de modo muito escolar as consequências problemáticas da doutrina estoica segundo a qual a alma é um corpo, um sopro (pneuma) corporal. * As objeções que Plotino dirige aos estoicos são, em sua maioria, de origem aristotélica: Plotino se apoia nas observações doxográficas do primeiro livro do tratado Sobre a alma de Aristóteles e segue o tratado homônimo de Alexandre de Afrodísias (fim do século II - início do século III d.C.), que já havia dirigido à definição estoica da alma objeções similares. * O tratado plotiniano torna-se por sua vez um documento doxográfico de primeira importância para o conhecimento da doutrina estoica. * Os estoicos definem a alma como um sopro corporal dividido em diferentes partes espalhadas pelo corpo vivo; mesmo nuançando essa hipótese com a expressão sopro "de certa maneira", não se consegue explicar o movimento e a organização dos corpos. * A existência de um corpo só pode ser concebida supondo-se um princípio incorpóreo que seja sua origem: o que confere movimentos aos corpos, os organiza e os ordena é uma alma indivisível que age sobre o corpo sem sofrer as mudanças que o afetam. * As razões apresentadas por Plotino são em sua maioria de ordem psicológica: sem uma alma separada do corpo, nada do que este percebe poderia ser conservado, a sensação seria impossível pois as percepções não se associariam para compor a sensação de um mesmo objeto, e o pensamento não poderia ser imputado a um corpo. ---- * As objeções à doutrina estoica levam Plotino a defender uma separação nítida entre alma e corpo, duas realidades perfeitamente distintas, sendo que apenas a alma possui existência (hupostasis), enquanto o corpo dela carece. * Sustentar, com os estoicos, que alma e corpo estão intimamente misturados no vivente é arriscar não poder mais distinguir as potências da alma das do corpo, e finalmente não poder explicar sequer o que são os corpos. * A mesma exigência de separar as naturezas psíquica e corporal comanda a refutação das definições pitagórica e aristotélica da alma nos capítulos 84 a 85. * A definição aristotélica é refutada com mais dificuldade e ambiguidade, pois Plotino dela é grandemente devedor: ele conduz sua análise apoiando-se em Aristóteles e em seus comentadores, emprestando-lhes numerosos argumentos, hipóteses e conceitos, antes de reprovar ao Estagirita ter sustentado que a alma era a enteléquia do corpo. * Os aristotélicos têm ao menos o mérito, diferentemente dos estoicos, de reconhecer que uma parte da alma existe separadamente do corpo e é imortal; mas Plotino exige que se admita que a alma não é em nada, em nenhuma de suas partes, a forma de um corpo, sendo a realidade incorpórea que dá existência a todos os corpos ao informar a matéria. ---- * A refutação dos predecessores e contemporâneos conclui com a afirmação de uma alteridade radical: a alma é de uma outra natureza que a corporal, sendo, como insistem os capítulos 9 a 12, uma realidade divina, incorpórea e inteligível. * A incorporação da alma não é a mistura de duas naturezas homogêneas, mas o resultado de uma produção do corpo pela alma, sendo a vida apenas o efeito da existência, do movimento e do cuidado que o produtor dá ao seu produto. * Ao refutar todas as definições que aparentam a alma ao corpo, Plotino se vê obrigado a explicar por que e como a primeira produz e se liga ao segundo, dificuldade agravada pelo fato de que a incorporação é para a alma um perturbação, senão um sofrimento. * Plotino retoma as últimas páginas do livro X da República (608c sq.), nas quais Platão afirmava que a incorporação é para a alma uma forma de mutilação, sem que sua verdadeira natureza se modifique; o paradoxo é apenas aparente, pois a alma, por mais perturbada que seja por sua atividade junto aos corpos, não abandona sua verdadeira natureza e seu lugar próprio, que é o inteligível. * Os últimos capítulos do tratado 2 sustentam que a alma pertence ao inteligível, não abandona o princípio do qual provém, e que sua descida nos corpos é apenas parcial ou relativa, pois o que desce é apenas uma parte de si mesma que em certa medida avança nos corpos, enquanto a alma em si subsiste essencialmente fora deles. * O capítulo 13 imputa a incorporação a um desejo da alma: a fim de produzir uma ordem conforme ao que vê no inteligível, a alma produz o mundo sensível e dele cuida; e os tratados ulteriores que examinarão essa questão não se afastarão da solução doutrinária aqui indicada: a alma produz os corpos sem abandonar o Intelecto, seu princípio e genitor, e essa produção é para ela uma necessidade. Cronologicamente, IV 7 é o segundo (Vida 4, 24); formalmente, é o mais “escolar” dos tratados1; e, tematicamente, constitui uma tomada de posição inequívoca em defesa da concepção platônica da alma frente às outras escolas. O capítulo 1 levanta a questão de saber se o homem individual é ou não imortal; mas como “a alma é o próprio homem” (1, 24-25), a questão da imortalidade do homem se reduz à questão da imortalidade da alma, o que leva Plotino a abordar o problema que, conforme indicado no início do capítulo 2, constitui o tema central do tratado: qual é a natureza da alma?2. O desenvolvimento desse tema divide-se em duas grandes seções, das quais a primeira (capítulos 2-85) é refutativa: a alma não é nem um conglomerado de átomos, contra os epicuristas, nem um pneûma corporal, contra os estoicos, nem uma harmonia, contra os pitagóricos, nem uma atualidade inseparável, contra os peripatéticos³. A segunda, que ocupa o restante do tratado, é uma defesa da tese platônica da alma como substância real, transcendente, divina, simples e imortal. A grande lacuna dos códices eneádicos4 pôde ser felizmente suprida graças a EUSEBIO DE CESARÉIA, que, em duas seções distintas de sua Praeparatio Evangelica (XV 22, 1-67, e XV 10, 1-9), transcreve IV 7, 1-84 e IV 7, 85, respectivamente. A primeira dessas duas transcrições é precedida pelo seguinte epígrafe: «Contra os estoicos, que a alma não pode ser corpórea, do primeiro livro de Plotino sobre a alma»5. A segunda transcrição é precedida por outro epígrafe: «Do segundo livro de Plotino sobre a imortalidade da alma contra Aristóteles, que disse que a alma é atualidade.» Isso indica que Eusébio dividia IV 7 em dois livros ou que o encontrou assim dividido na edição de seu uso6. Por sua vez, o texto dos códices de Eusébio pôde ser corrigido em três passagens graças aos Plotiniana arabica⁷. ---- {{indexmenu>.#1|tsort nsort nocookie}}