====== Aurora ====== //VIEILLARD-BARON, Jean-Louis. Platon et L’Idéalisme Allemand (1770-1830). Paris: Éditions Beauchesne, 1979// **I Fichte, ou a renascença como ruptura** 1. O epígrafe Heliópolis, o último ano das trevas, que abre a Reivindicação da liberdade de pensar, não constitui marca de vontade de renascença, mas antes indicação de que as revoluções são necessárias para romper os entraves ao progresso irreversível da liberdade, fazendo da filosofia fichtiana não a ave crepuscular mas a ave da manhã, revolução ela mesma, determinação revolucionária de toda a realidade por vir, o que exclui qualquer periodização contínua do tempo em favor de uma temporalidade concebida como ruptura absoluta. 2. Dessa posição decorrem inúmeras consequências teóricas, entre elas a liberdade concebida antes de tudo como reivindicação, o abandono do velho nome alemão da filosofia em favor de Wissenschaftslehre, e a indissociação entre a revolução copernicana e a Revolução Francesa, que Fichte sempre admirou. 3. Compreende-se melhor o quão grande é o contrassenso, voluntário ou não, de Hegel sobre a filosofia de Fichte no escrito sobre a Diferença, ao assimilar o Eu ao Absoluto contra a própria letra dos textos fichtianos e ao postular uma ideia de renascença como retorno à unidade originária, quando semelhante ideia é, ao contrário, absolutamente impensável em Fichte, para quem o novo nascimento deve ser ruptura e nunca retorno. 4. O único ponto comum entre Fichte e os filósofos românticos e idealistas, quanto à ideia de renascença, é a afirmação de que houve na época precedente uma morte espiritual, mas o enterro pomposo do Iluminismo, ainda que comum a toda geração que mata seu pai como fez Platão primeiro, não basta por si só para provocar uma renascença. **II Eros e ágape** 5. Poucos temas foram mais celebrados na década estudada do que o amor, verdadeira renascença em relação ao Iluminismo, cabendo perguntar, com as categorias de Nygren, se se trata de um amor concebido como caridade paulina ou como Eros platônico-órfico, sendo a caritas dom de Deus e o Eros movimento espiritual que conduz o indivíduo pela via da salvação. 6. A grande fonte escriturística desses pensadores é o Evangelho de João, e não as epístolas de Paulo, o que os opõe fortemente a Kant e ao pessimismo luterano do homem curvado sobre si mesmo, sendo significativo que já em 1794 Fichte recuse essa concepção ao afirmar que a curvatura resulta da ação não entravada dos objetos sobre um homem cuja razão ainda não despertou, devendo a educação restituir-lhe a retidão original, sem contudo proclamar jamais o valor ascensional do Eros. 7. Ao publicar em 1796 os Princípios do Direito Natural, Fichte trata do amor apenas para fundamentar o casamento por amor, e mesmo no Guia para a vida bem-aventurada estabelece equivalências entre amor, vida e conhecimento sem jamais alcançar o delírio platônico do esquecimento de si, permanecendo o amor exterior ao núcleo essencial do sistema fichtiano. 8. Na mesma época em que Hölderlin elaborava seu Hipérion, o amor ali celebrado situa-se sob o signo da renascença do eros platônico, revelado pela heroína Diotima, seguindo o exemplo de Hemsterhuis, que já dera esse nome à sua inspiradora, a princesa Gallitzin. 9. A Carta sobre os Desejos de Hemsterhuis distinguia o instinto de união do amor espiritual voltado ao geral, distinção que Herder contestava em nome de um amor sempre desejo e gozo entre pessoas livres, ao passo que Hölderlin representa o amor, em sentido inteiramente platônico, como potência de reunificação e retorno a uma unidade originária perdida que era preciso reconquistar. 10. Hegel encontrava-se então em plena comunhão de pensamento com Hölderlin, e foi em nome do amor que se fez a primeira crítica fundamental ao Eu absoluto de Fichte, pois para Hölderlin o Eu é sempre sujeito relativo ao objeto, nunca absoluto, sendo o amor o único caminho de retorno à unidade originária que Fichte não soube ver. 11. Esse passo Hegel o deu alegremente, como provam seus textos teológicos de juventude, ao afirmar que só no amor se faz um só com o objeto, sem dominá-lo nem ser por ele dominado, aproximando-se assim mais do andrógino do discurso de Aristófanes no Banquete do que da caridade cristã. 12. Hegel conserva, contudo, de Fichte alguns termos que parecem afastá-lo do Eros platônico, definindo o amor como ato recíproco de receber e dar nos mesmos termos fichtianos da ação recíproca, deslizamento significativo pelo qual Hegel transcreve em termos de unificação o que Fichte pensava como coordenação social, buscando em Romeu e Julieta, e não no Contrato Social, a ilustração de sua teoria do amor como misteriosa superabundância de ser. 13. Se Hegel não sublinhou a dimensão cósmica do amor, foi provavelmente por temor do panteísmo, temor que não deteve Schleiermacher, cujo fragmento sobre o andrógino n'Athenäum de 1798 ecoa o romance Lucinda de Friedrich Schlegel, testemunhas ambos da profunda ressurgência do mito da reunificação do homem. 14. O desejo sensual é exaltado por Schlegel e Schleiermacher conforme o pensamento platônico, divergindo apenas quanto à indissolubilidade do casamento, mas concordando ambos em que a beleza e a moralidade se recobrem inteiramente sob o signo de Platão, sendo antes a este do que a Paulo que se deve pensar, afastado o exagero romântico. 15. Franz von Baader extraiu da discussão entre Schlegel e Schleiermacher um profundo ensinamento sobre o valor religioso do erotismo, associando ao instinto e ao desejo o dom e o sacrifício, ligando assim o Eros ao Ágape. 16. O idealismo alemão foi, portanto, verdadeira renascença do Eros platônico, sem o qual não se pode explicá-lo, ao menos até 1807, renascença que precede e prepara o florescimento do Ágape, pois onde o desejo humano é condenado não pode haver Ágape autêntico, mas apenas pálidos sucedâneos. 17. Somente Schelling permaneceu à margem dessa renascença do Eros em seus primeiros anos, compreendendo o amor a partir da noção de liberdade e designando-o Deus-desejo à maneira de Jacob Boehme, mais comentário do Mysterium Magnum do que retorno ao Eros platônico, que jamais é fundamento no Deus de Schelling. **III A aurora e o oriente** 18. Cabe perguntar se se trata então de uma renascença do Oriente ou da Grécia, podendo o retorno vivificador às origens revelar que a Grécia foi apenas emergência de uma verdade originária situada no Oriente. 19. Segundo Wilhelm Bietak, enquanto a Renascença dos séculos XV e XVI foi renascença da antiguidade greco-romana, o romantismo alemão foi renascença do Oriente, aspiração à origem indecisa onde crer e saber, pensar e ver, nascer e viver ainda não se distinguiam. 20. Foi Herder quem criou esse miragem do Oriente, praticamente inventando-o, sendo inegável a contribuição dos mitólogos Görres, Creuzer e Kanne, ainda que a orientalomania romântica tenha malogrado por se apoiar em número reduzido de textos que davam imagem apenas parcial do pensamento indiano ou persa. 21. Na célebre passagem de seu diálogo Bruno, Schelling traça uma geografia espiritual segundo os quatro pontos cardeais, atribuindo ao Oriente a teoria das Ideias sob o nome de intelectualismo, tema que a tradição do século XVIII já associava ao Egito e a Zoroastro, sem opor Grécia e Oriente, ainda que Schelling dispusesse então de novas fontes graças às traduções de Kleuker, e tanto ele quanto Hegel tenham recusado de comum acordo o orientalismo delirante, permanecendo fiéis à Grécia. 22. Nisso conservavam o pensamento de Hölderlin, para quem o clima ardente do Oriente produzia antes caricaturas que a serena beleza grega, embora Hegel tenha querido manter para o Oriente o lugar de origem, tanto na arte quanto na religião e na própria história universal, cujo oriente por excelência é a Ásia. **IV Platão e Jacob Boehme** 23. Cabe agora examinar se o retorno à origem para além da morte foi retorno ao platonismo ou à tradição teosófica alemã, pois o retorno aos textos de Platão e aos de Paracelso, Böhme e Oetinger foi simultâneo, restando saber se tal simultaneidade foi fortuita ou necessária. 24. Que houve então uma renascença de Platão sob forma de aspiração nostálgica não se pode duvidar, como atestam Hölderlin, Schelling, Schleiermacher e Hegel, cuja dissertação latina De orbitis planetarum, influenciada por Schelling, proclamava dever-se retornar à antiga série numérica do Timeu justamente no momento em que Piazzi descobria o planeta Ceres. 25. O Platão em questão era o do Fedro e do Banquete, traduzidos então pelo conde Stolberg, Platão do entusiasmo e da mística que também o jovem Novalis apologizara, mas também o Platão do Filebo e do Timeu, do qual a Naturphilosophie tiraria proveito. 26. Em Schleiermacher, como em Schelling, Platão e Espinosa associam-se voluntariamente numa espécie de liga da fé religiosa e filosófica contra o formalismo de Kant e Fichte, sem que isso constitua de modo algum ressurreição da teosofia. 27. Foi Kleuker quem primeiro estabeleceu metodicamente o vínculo entre a tradição hermética e o platonismo em sua Doutrina da emanação, apoiada em vasta documentação de escritos cabalísticos, herméticos e teosóficos. 28. Kleuker mostra contra Brucker que não se pode supor a criação ex nihilo entre os antigos, remontando a doutrina da emanação à Caldeia e aos escritos joaninos, o que tornou impossível, após sua leitura, opor Platão e o hermetismo cabalístico, sem que isso signifique terem sido idênticos o impacto de Platão e o de Böhme sobre o idealismo alemão. 29. Outra fonte de informação encontra-se no texto de Kurt Sprengel, ao qual Novalis frequentemente recorria, ligando a magia natural persa e caldaica à doutrina da emanação transmitida por Plotino, ainda que Platão, nem emanacionista nem hermetista, não permita falar aqui de verdadeira renascença platônica. 30. Em Schelling, os temas essenciais de Filosofia e Religião e das Investigações sobre a liberdade humana testemunham a intrincação platônica e hermetista, sobretudo no tema da queda de ressonância platônica e no par expansão-contração que, retomado de Jacob Böhme, já não é doutrina autêntica de Platão. 31. A herança mesclada de platonismo e hermetismo pode ser resumida num esquema ascensional e regressivo em relação ao absoluto, contaminado por um esquema de contração-expansão de registro diverso, permanecendo sempre num contexto mais platonizante do que propriamente platônico, o que caracteriza uma tendência renascentista ao amálgama. 32. A apreensão mais profunda da ideia de renascença é a que Hölderlin indica ao final de Palinodia, a reconciliação entendida em sentido forte que supõe o sacrifício e a morte querida, sendo Empédocles, como alhures Sócrates, imagem de Cristo, único reconciliador absoluto. 33. Do ponto de vista filosófico, essa incontestável renascença que foi o idealismo alemão constituiu, como renascença de um eros platônico mesclado de hermetismo, verdadeiras soteriologias, exigindo que a ideia de renascença seja levada a sério, ou seja, que o estudo sincrônico do pensamento filosófico não exclua o estudo diacrônico, e que se compreenda que as ideias nascem, morrem e renascem segundo modo próprio, numa espécie de metempsicose que o idealismo alemão, e sobretudo Hegel, concebeu antes segundo o modelo da ressurreição de Cristo do que da simples alternância natural entre vida e morte. {{tag>Vieillard-Baron Platão Iena Fichte Boehme}}