====== Radicalidade ontológica do saber ====== //[[.:start|Mesquita]]// O saber como pergunta e resposta em Platão se define inteiramente pela questão "o que é", que orienta ao mesmo tempo o proceder filosófico e a vida humana em sua busca de sentido. * A questão "o que é" não é um método entre outros, mas o único procedimento possível de um saber que não se abstrai da vida. * O perguntar "o que é" corresponde à natureza intrínseca daquilo que se busca conhecer. * A radicalidade dessa questão é tanto de exigência especulativa quanto de coerência e sentido existencial. A ignorância radical é o ponto de partida necessário e inaugural do verdadeiro saber platônico, pois não saber "o que é" equivale a não saber coisa alguma. * Não saber "o que é" implica não saber nada, porque sem esse saber nenhum outro se sustenta. * A ignorância provoca simultaneamente um radical desejo de saber e um radical desejo de ser. * Essa tomada de consciência percorre a totalidade dos diálogos platônicos, especialmente os do primeiro período. A ignorância generalizada aparece em múltiplos diálogos como condição infamante que ameaça o sentido da vida, conforme Sócrates declara em várias ocasiões. * No Górgias, a instabilidade dos "pareceres" é sinal de uma ignorância monumental e infamante. * No Mênon, Sócrates declara jamais ter encontrado alguém que soubesse a excelência. * No Laques, o reconhecimento final da ignorância sobre a coragem vem acompanhado da proibição socrática de que os presentes permaneçam nesse estado. * Na Apologia, Sócrates declara a "sabedoria humana" como "algo de pouco ou mesmo de nenhum valor". No Hípias Maior, a ignorância atinge sua formulação mais radical, sendo comparada à morte pelo interlocutor interno que Sócrates chama de "terrível adversário". * Sócrates descreve esse adversário como alguém que habita sua casa e não o deixa descansar com a questão "o que é". * O adversário pergunta a Sócrates: "Como é que estabeleces que um qualquer discurso tem uma forma bela ou não, e do mesmo modo para os outros atos, desconhecendo o belo?" * O adversário conclui: "Pensas tu, porventura, que, quando se está nesta situação, a vida seja muito melhor do que a morte?" Quatro traços fundamentais definem a ignorância em Platão e seu valor maiêutico como situação germinal do verdadeiro saber. * Saber é saber "o que é". * Ninguém sabe "o que é". * Tal ignorância é equivalente à morte. * Urge saber. A ignorância tem uma dupla função no pensamento platônico: expõe seu caráter infamante e indica ao mesmo tempo o caminho para superá-la. * Por um lado, patenteia a ignorância, mostra seu caráter vergonhoso e incentiva a superá-la. * Por outro, aponta o que justamente se ignora, ou seja, "o que é", indicando a direção do verdadeiro saber. Na Apologia, a questão "o que é" se autonomiza de seu vínculo exclusivo com a excelência e passa a abranger a totalidade dos possíveis saberes humanos. * A declaração de que a sabedoria humana é "de pouco ou mesmo de nenhum valor" tem alcance absolutamente genérico. * Sócrates examina políticos, poetas e artesãos, representando metonimicamente a totalidade dos homens. * Nenhum dos examinados sabe em que consiste aquilo que diz saber, revelando uma ignorância total e opaca a si mesma. * Não saber significa não saber nenhuma coisa, não saber as coisas tais como elas são — o que cada coisa é. A descoberta da ignorância universal abala o mundo desde suas raízes, revelando que as coisas não são como se julgava e que a própria noção de "coisa" se torna estranha. * O mundo familiar se transforma no inquietante mar do que provoca a saber, justamente porque mostrou primeiro que não era sabido. * Apodera-se de quem descobre isso a vertigem de um mundo diferente que é, de modo mais inquietante ainda, o mesmo mundo. * Essa ignorância recém-descoberta é já a ignorância do sábio, pois detecta um outro domínio de saber que supera e justifica o anterior. Quem ignora "o que é" vive como se o conhecesse, e sua vida torna-se ilusória, participando do estatuto fluido do sonho e da sombra. * O que não conhece "o que é" julga conhecê-lo, de modo que sua vida é ilusória duplamente: quanto ao ato de conhecer e quanto ao objeto que julga conhecer. * Aquilo que o ignorante chama de ser não é; e do que verdadeiramente é, nem sequer suspeita. * Só quem autenticamente sabe autenticamente é — e quem nada sabe na verdade nada é, sendo apenas uma pálida sombra de si mesmo. * O ser de "nulo valor" é o ser da maior parte dos homens. Os diálogos socráticos visam mostrar que nada sabemos e apontar simultaneamente o que há a saber, revelando a alternativa entre o verdadeiro caminho e os falsos caminhos. * O que há a saber é justamente o que não se sabe e o que, por não ser sabido, faz de todo saber um puro nada. * Esse que não se sabe, que há a saber e que faz do saber existente um nada, é "o que é". * O diálogo socrático coloca o homem diante da alternativa radical entre a filosofia e a sofística, entre o saber que é nada e o saber do que verdadeiramente é. * A verdadeira aporia não é aquela a que os diálogos chegam — essa é simultaneamente o lugar do caminho; a verdadeira aporia é o estado de quem vive o "nada" sem o saber. * Nenhum interlocutor sai do encontro com Sócrates sem ter escolhido: esse encontro foi o encontro com a própria escolha. O Hípias Maior divide-se estruturalmente em prólogo, onde se caracteriza o sofista, e diálogo propriamente dito, onde se discute a natureza do belo — sendo seu tema real o saber e suas condições. * As condições do saber expostas nesse diálogo correspondem ao que nos diálogos posteriores receberá o nome de "ideias". * O caráter aporético do diálogo advém da incapacidade de Hípias de alcançar a compreensão da exigência contida nessa exposição. * À progressiva caracterização do sofista como ignorante corresponde simetricamente a progressiva caracterização do filósofo como aquele que parte da ignorância assumida em direção ao projeto do saber. A contraposição entre sofista e filósofo no Hípias Maior é a contraposição entre saber aparente e saber real, expressa na exigência socrática do "próprio belo" diante das meras "coisas belas". * Hípias não compreende que perguntar "o que é o belo" é absolutamente diverso de perguntar "o que é belo". * O saber verdadeiro está vinculado desde o início à dimensão do "próprio", ou seja, à dimensão das ideias. * É o desconhecimento dessa dimensão de "o que é" — mais do que o desconhecimento do que efetivamente é — que configura toda a espessura da ignorância sofista. * O conhecimento dessa mesma dimensão, ainda quando desprovida do conhecimento do que efetivamente é, eleva a ignorância socrática ao estatuto de um saber germinal. A ignorância e o saber em Platão não se opõem de modo simples, mas se articulam em uma circularidade dialética que define o lugar próprio da filosofia. * A ignorância absoluta não é o mero desconhecimento do que as coisas são, mas a radical desatenção ao plano específico de "o que é". * O saber projetado começa pela assunção desse mesmo plano como campo a prosseguir e pesquisar. * O verdadeiro saber é imediatamente filosofia porque não se dá como radical conhecer do que é, mas como simples projeto desse conhecer. * Sabendo que se ignora, sabe-se o que se ignora — e só é possível saber que se ignora quando se sabe o que se ignora. * A filosofia como projeto de adveniência ao saber nada mais é do que a tematização daquilo que a um tempo se sabe e se ignora — ou seja, da anamnese.