====== Estoicos ====== Thomas McEvilley — Configuração do Pensamento Antigo === Os estoicos e o pensamento indiano === * Fundação e Características da Escola Estoica * Fundação do Estoicismo por Zenão de Cítio por volta de 300 a.C. após seus estudos com Crates, o Cínico, e Estílpon de Mégara, entre outros. * Estabelecimento da escola no Pórtico Pintado e sua característica de liberdade de debate, permitindo análise, revisão e reinterpretação contínuas da doutrina de Zenão. * Tentativa de harmonizar a ênfase cínica no percepto com a ênfase platônico-aristotélica no conceito ao longo da história da escola. * Diferentes abordagens dentro do Estoicismo, como a rejeição do conhecimento conceptual por Aristão de Quio e a atenção dedicada à lógica e à construção metafísica por Crisipo. * Cosmologia * Cosmologia estoica como um monismo qualificado, semelhante às filosofias Vedanta e Vaishnava da Índia, postulando imanência e transcendência. * Conceito de Deus como idêntico ao mundo e, ao mesmo tempo, diferente dele, possuindo um estado não manifesto e transcendente e um aspecto manifesto que é o mundo. * O aspecto manifesto é adorado como matéria passiva e poder criativo, sendo este último denominado Alma do Mundo. * Denominações do Ser Cósmico, como Fogo, Ar, Sopro, Alma do Mundo, Éter, Mente Universal, Razão Universal, Lei Cósmica, Natureza e Destino, com ressonâncias órficas na figura de Zeus. * Processo cíclico de manifestação através de um ano cósmico, seguido de uma conflagração e de um período atemporal de não manifestação, com eventos idênticos em cada ciclo. * Reabsorção de todos os seres separados na unidade de Zeus na dissolução do universo manifesto, com a transformação dos elementos conforme a tradição pré-socrática. * Reinterpretação por estoicos posteriores, como Boeto e Panécio, da ciclicidade como aspectos simultâneos e não sucessivos. * Paralelos Hinduístas * Similaridade do modelo de realidade estoico com a cosmologia pré-socrática e upanishádica, envolvendo monismo qualificado, politeísmo incluso e processo cíclico. * Manutenção deste modelo cosmológico no centro religioso da Índia, nas filosofias Vedanta e Purânica, contrastando com seu afastamento no Ocidente pelo dualismo. * Monismo e Teísmo * Paralelo entre a distinção estoica do Zeus manifesto e não manifesto e a distinção Vedanta entre //brahman// como //saguna// e //nirguna//. * Apresentação mitológica da ciclicidade nos Puranas, comparando o sono de Vishnu no //pralaya// com o estado quiescente de Zeus. * Similaridade entre o conceito estoico do Zeus ativo e o conceito Vedântico de //Ishvara//, permitindo toques teístas como a adoração devocional em um sistema monista. * Zeus providente como princípio orientador, contendo os deuses do politeísmo grego, análogo ao //Ishvara// de Shankara, cuja relação saudável é //Ishvara pranidhana//. * Compromisso com o teísmo nos Puranas, onde Vishnu é um superdeus semelhante a Zeus, contendo deuses menores e passível de adoração dualística. * Analogia lógica para a relação entre os aspectos cósmicos: para Crisipo, Deus é a premissa inicial e o mundo as proposições deduzidas; para Ramanuja, Deus é a substância e o mundo seus atributos. * Ética * Ética estoica desenvolvida dentro do quadro cosmológico, enfatizando a harmonização com a Natureza, Zeus ou o Destino, considerando o realm do esforço egóico como fútil. * Visão de Cleantes: "O Fato [[ou Zeus] conduz o que aceita — arrasta o que resiste". * Correlação macrocosmo/microcosmo, onde o eu individual é uma versão miniatura do Grande Eu, Zeus, e a harmonização leva a uma unificação simbólica. * Ação do sábio harmonizado como cooperação com a harmonia cósmica, sem apego a fins pessoais, análoga à ação do //karma yogin// descrita na Bhagavad Gita. * Religião * Manutenção dos deuses do politeísmo nas tradições estoica e hindu, com o absoluto sendo tratado como receptáculo de projeção emocional. * Interpretação de //Ishvara pranidhana// pela escola de Ramanuja como devoção terna, paralela aos humores de amor e ternura no Estoicismo, além da aceitação estoica. * Conceito de //amor fati// — amor ao destino — alimentando humores devocionais, como expresso por Sêneca: "O Cosmos é a mãe de todos nós", e por Epicteto: "A Natureza é maravilhosa e cheia de amor por todas as criaturas". * //Prana// * //Prana// no Hinduísmo como força vital fundamental, descrita no Purushasukta do Rig Veda como o sopro do Ser Cósmico, Purusha. * Equiparação do //prana// com o absoluto //brahman-atman// nas Upanishads, como no Bṛihadāraṇyaka Upanishad: "O sopro (//prana//) é o imortal, nome e forma são o real. Por eles este sopro (//prana//) é velado". * Identificação do //prana// como força coesiva interna que mantém todos os fenômenos unidos, conforme discurso de Yajnavalkya: "Pelo ar (//prana//) como por um fio este mundo, o outro mundo e todos os seres são mantidos juntos". * Função dupla do //prana// como princípio cósmico e pessoal, vital, por vezes identificado com fogo e éter, e como consciência, sendo //prana// e //prajna// interdependentes. * //Prana// no Hinduísmo pós-upanishádico como representante empírico do //atman//, a substância sobre a qual o iogue trabalha através do //pranayama// para controlar e acumular energia vital. * Ação do //prana// em correntes pelo corpo, centradas no umbigo, com a iluminação resultante de uma relação especial e da manipulação desta força sutil. * //Pneuma// * Conceito estoico de //pneuma// como "sopro", possivelmente herdado da visão pitagórica do cosmos como ser vivo que respira, com influências de Aristóteles e teorias médicas. * //Pneuma// para Crisipo como mistura de fogo e ar, uma força onipenetrante que mantém a coesão do universo e dos indivíduos, criando uma tensão dinâmica. * Identificação do //pneuma// com Zeus, o Ser Cósmico absoluto, funcionando como substrato de todas as formas e elemento de conexão interno. * Função dupla do //pneuma// nos níveis cósmico e pessoal, como alma ou mente de Zeus e como alma, mente ou sopro corporal do indivíduo. * A alma estoica, o //hegemonikon//, identificada com o //pneuma// em estado sutil, sendo o aspecto consciente, paralelo à //prajna// do //prana//. * Fluxo do //pneuma// como correntes respiratórias pelo corpo, através de uma rede de canais centrada no peito, produzindo pensamentos por sua ação sutil. * Iluminação como resultado do controle da vibração do //hegemonikon// para harmonizá-la com a vibração do //pneuma// cósmico, coincidindo com o pensamento racional. * //Prana/Pneuma// * Paralelismos abrangentes entre //prana// e //pneuma// como sinônimos do absoluto, substrato das formas, elemento de conexão interna e força unificadora que tudo permeia. * Função de ambos como princípio cósmico e pessoal, identificados primariamente com o ar, mas também com fogo e éter, e com a Consciência Universal. * Morte caracterizada pelo afrouxamento da força coesiva do //prana// ou //pneuma//, fazendo com que as faculdades se dissolvam. * Rede de canais internos para o fluxo de //prana// (centrada no umbigo) e de //pneuma// (centrada no peito), desconhecidas da fisiologia moderna. * Iluminação em ambas as tradições consistindo em uma relação especial com o //prana// ou //pneuma//, através do controle de sua vibração ou fluxo. * Iluminação * Distinção estoica radical entre a comunidade dos Sábios e a dos tolos, sem classificação intermediária, similar a distinções em religiões de iluminação da Índia. * Iluminação como estado radicalmente diferente do ordinário, de acesso instantâneo e irreversível. * Diferença fundamental: o sábio aceita o que vem, harmonizando-se com Zeus, enquanto o tolo resiste egoticamente. * Desaparecimento virtual do eu pessoal no sábio, cujo //hegemonikon// sincroniza com o de Zeus, expandindo para além dos limites do ego, com similaridades com os ensinamentos budista e hindu de não-ego. * Diferenças * Similaridade geral do sistema estoico com as ideias principais encontradas na maioria dos sistemas indianos, assemelhando-se a uma versão em miniatura do Hinduísmo Brâmane. * Diferenças específicas: ausência da doutrina da reencarnação no Estoicismo; ciclos de manifestação como repetições exatas; inexistência de um período de quiescência de duração igual ao de atividade cósmica; e falta de ensino de técnicas de meditação e disciplinas corporais análogas ao //yoga// indiano. ----