===== Uno-Gnosis ===== //DECK, John N. Nature, contemplation, and the one: a study in the Philosophy of Plotinus. Burdett, NY: Larson Publ, 1991.// O Uno não possui conhecimento no sentido próprio do termo, pois atribuir-lhe conhecimento seria torná-lo dual — o conhecedor e o Bem. * "Portanto, não acrescentes conhecimento ao Uno, para não acrescentar outro a ele e fazer dois, o conhecedor e o Bem." (III, 8, 11, 12-14.) * O Uno não necessita de conhecimento (V, 3, 12, 49-50; V, 6, 4, 1-2). * O conhecimento não é perfeitamente simples: requer um objeto de conhecimento, uma entidade. * No Noûs, onde o conhecimento existe em seu grau mais elevado, há unidade entre conhecimento e objeto, mas essa unidade não é o Uno sem qualificação (V, 6, 6, 22-28). * Nenhum conhecedor é absolutamente simples; portanto, o Uno não pode ser um conhecedor (cf. V, 3, 11, 26-31). * Plotino dedica um tratado inteiro (V, 6) a mostrar que o Uno não conhece, e argumenta em muitos outros lugares a impropriedade e impossibilidade de o Uno ter conhecimento. * "O Uno não conhece nem a si mesmo nem qualquer outra coisa." (VI, 7, 39, 19-20.) Dizer que o Uno não se conhece não significa, para Plotino, que o Uno seja ignorante de si mesmo, pois a ignorância, como o conhecimento, implica dualidade — o Uno está propriamente além do conhecimento. * O Uno nem conhece nem é ignorante (VI, 9, 6, 42; cf. VI, 7, 37, 23-28). * Está mais propriamente além do conhecimento (V, 3, 12, 48-49; VI, 7, 40, 24-29). * O Uno não conhece porque um conhecedor jamais é perfeitamente uno, e porque o conhecimento implica dualidade. * Coloca-se então a questão: assim como há quase-hipóstase e quase-vida no Uno, poderia haver um quase-conhecimento — um estado cognitivo positivamente além do conhecimento, simples e não dual? Segundo uma interpretação plausível de uma passagem, o Uno possui, em lugar do conhecimento, um autocontato. * "Assim, é necessário que o conhecedor tome coisas diferentes, e que o conhecido, sendo conhecido, seja variado: ou não haverá conhecimento do conhecido, mas antes um tocar, e como que um contato apenas, não falado e não conhecido, um pré-conhecer (pronoousa) quando o Noûs ainda não foi gerado, e o que toca não conhece. ... O conhecimento é, como que, um encontrar por parte de quem buscou. O que é completamente sem diferença [o Uno] permanece em si mesmo voltado para si, e não busca nada acerca (peri) de si." (V, 3, 10, 40-43; 49-51.) * A expressão "antes de o Noûs ser gerado" mostra que Plotino trata do Uno em si mesmo. Falando "incorretamente", Plotino reúne as duas noções do autocontato do Uno e de seu estar voltado para si numa frase que especifica essa atitude como um fazer. * "O Uno, como que, fez a si mesmo por um ato de olhar para si. Esse ato de olhar para si é, de certa forma, seu ser." (VI, 8, 16, 19-21.) * Nesse texto, o Uno é chamado de autocontemplação, assim como o Noûs, a alma e a natureza são, cada qual a seu modo, autocontemplações. * Um pouco adiante na mesma passagem, o Uno é chamado de eterno superconhecimento (hypernoesis): "Se, agora, seu [do Uno] ato não devém mas é sempre, e é uma espécie de vigília que não é outra que aquele que está acordado, sendo uma vigília e um eterno superconhecimento (hypernoesis), estará do modo como está acordado. A vigília está além do ser e do Noûs e da vida inteligente; a vigília é ela mesma." (VI, 8, 16, 31-36.) Há várias indicações no contexto geral dessa passagem de que Plotino intende o sentido positivo de superconhecimento, e não meramente o de algo acima do conhecimento. * Plotino diz que "o mais amável no Uno é, como que, o Noûs" (ibid., linha 15) — referindo-se não à hipóstase Noûs, mas ao fato de que o mais amável no supremamente amável é, como que, a inteligência. * A Enéada VI, 8, 18 ecoa o mesmo pensamento: há no Uno uma espécie de inteligência que não é o Noûs; ser e Noûs, ao se derramarem do Uno e dependerem de sua natureza intelectual, dão testemunho de que há conhecimento no Uno. * Em V, 4, 2, sem nenhuma ressalva sobre falar sem rigor, Plotino afirma sem equívoco que o Uno possui autoconhecimento: "não é, por assim dizer, imperceptivo, mas tudo nele está nele e com ele; é inteiramente autodiscernente; a vida está nele e todas as coisas estão nele; e seu autoconhecimento é ele mesmo, um autoconhecimento por uma espécie de sinestesia estando em estase eterna e num conhecimento de outro modo que o conhecimento segundo o Noûs." O conhecimento, que aparece de algum modo na natureza, mais plenamente na alma e perfeitamente no Noûs, não está ausente da mais elevada "natureza", o Uno — a continuidade do conhecimento não é abruptamente rompida na ascensão do Noûs ao Uno. * Em todos os níveis, o nisus do conhecimento tende para a identidade: o conhecimento torna-se mais verdadeiro à medida que conhecedor e conhecido se tornam mais idênticos. * No Noûs: "a theoria deve ser a mesma que o contemplado, e a Inteligência a mesma que o inteligível. Pois, se não fossem o mesmo, não haveria verdade. Pois o possuidor teria uma impressão dos seres em vez dos seres, e portanto não haveria verdade." (V, 3, 5, 21-25.) * Como a identidade é o ideal do conhecimento e a dualidade apenas sua condição, a sinestesia autoidentitária do Uno pode ser um superconhecimento em sentido positivo. A instância primária do conhecimento no universo de Plotino é, portanto, o superconhecimento do Uno, e a instância primária da geração é a geração do Noûs pelo Uno — tomadas em conjunto, constituem o análogo primário do produzir contemplativo da natureza.