===== Uno altíssimo ===== //GARCÍA BAZÁN, Francisco. Plotino y la mística de las tres hipóstasis. Ciudad Autónoma de Buenos Aires: El Hilo De Ariadna, 2011.// O curso de 258-259, resumido em [[trt>9:|Enn. VI,9 (9)]] — "Sobre o Bem ou o Uno" —, o mais místico dos tratados de Plotino, é dedicado inteiramente ao aprofundamento das meditações sobre o Uno altíssimo, começando com o enunciado que presidirá todo o conteúdo. * "Todos os seres são o que são graças ao Uno, tanto os que são em sentido próprio quanto aqueles de que se diz que estão entre os seres em sentido geral. Porque, que coisa poderia existir, se não existisse como uma?" * Eliminada a unidade de cada ser, os seres se esfumam: sem o princípio que unifica, exércitos, casas, plantas, animais e almas se dissolvem em multiplicidade sem significação ontológica. * O Alma do universo introduz unidade em todas as entidades sensíveis e psíquicas, mas não é a unidade em si mesma — ela a recebe do Intelecto, que por sua vez a recebe de algo superior. * Há, portanto, hierarquia de unificação e de unidades: cada ser é uno, mas é mais unido quanto maior realidade possui. * O Intelecto é unidade, mas múltipla — pois é ser, vida, conhecimento e abraça a pluralidade das ideias; como conhecimento imutável, já é dualidade patente e realidade segunda, contemplando o Bem como objeto cognoscitivo. Para chegar a conhecer com propriedade a natureza do Uno, é necessário entrar em familiaridade com os seres mais perfeitos ou unitários, pois são imagens mais próximas do Uno, e em seguida sobrevolar o limite superior do Intelecto. * "O que pode ser o Uno e qual é sua natureza?... É necessário não se afastar das coisas que estão em torno dos primeiros, para cair nas últimas de todas." * O Bem é anterior à visão espiritual e sem forma (amórpho) e sem ideia (aneídon), como anterior ao ser verdadeiro, e anterior à beleza em si, que lhe é posterior. * "Aquele Prodígio que está antes dele é o Uno." * "Nenhum nome lhe convém, mas, sendo necessário nomeá-lo, poderia por conveniência chamar-se em geral 'Uno'... é difícil conhecê-lo desse modo; melhor pode conhecer-se por seu rebento, a essência... e sua natureza é tal que é Fonte do melhor e Potência que engendra os seres, permanecendo em si e não se debilitando em seus produtos." Ao distinguir o Uno da unidade numérica ou do ponto, Plotino esclarece o sentido metafísico e não aritmético do termo, aprofundando a noção de Potência ou Possibilidade Universal. * "Ao dizer que é uno e indivisível, não o dizemos como do ponto ou uno numérico... não se deve pensar nestes, mas pensá-los enquanto analogicamente se assemelham ao Simples e à ausência de toda multiplicidade e parte." * "O que está em outro não está no divisível, nem tampouco é indivisível à maneira do mínimo, porque é o maior de tudo não por magnitude, mas por potência, ao ponto de ser o sem medida por sua Possibilidade." * "Sempre que o penses como Intelecto ou Deus, é mais; por outro lado, sempre que o unifiques pelo raciocínio, também nesse caso é mais do que quanto podes representar no mais singular do teu pensamento, porque é em si mesmo, carecendo de qualquer atributo." * A infinitude (ápeiron) do Uno não é a ilimitação sucessiva no tempo ou no espaço (adiexíteton), mas o Infinito por sua inabarcabilidade própria ou rejeição em si de qualquer limitação (aperiléptos). A Autossuficiência é equivalente ao termo Potência e denota absoluta falta de necessidades e plena capacidade — atributo que só ao Uno pode ser aplicado com sentido rigoroso, pois qualquer composição aponta para dependência. * "O que é múltiplo e não único tem necessidade de algo... O Uno não necessita de si, porque é Ele mesmo." * "Nada busca nem para ser, nem para estar bem, nem para aí se apoiar. Sendo causa para o demais, não tem o que é a partir de outros." * "O Princípio de todas as coisas não necessita de nenhuma. O que necessita está necessitado na medida em que aspira ao Princípio, mas se o Uno necessitasse de algo, buscaria evidentemente não ser o Uno." * "Para o Uno não existe nenhum bem, nem, portanto, terá desejo algum, mas é suprabem e tampouco é bem para si, mas para os outros, se podem participar algo dEle." * "A causa de todas as coisas não é nenhuma delas. Por esse motivo não deve denominar-se-lhe 'bem', pois o produz; em outro sentido totalmente diferente, porém, é o Bem que está sobre os outros bens." O Uno é Bem — não porque deseje algo, mas porque é objeto do desejo de tudo o mais — e, por nada desejar nem sequer a si mesmo, é Suprabem: há algo para o que não é um bem, que é para Ele mesmo. * A superação da interpretação peripatética do Filebo platônico em relação a uma corrente transcendentalista vinculada à Antiga Academia resulta assim compreensível. A partir do capítulo sétimo, a experiência da Primeira Hipóstase como fundamento último passa a autojustificar a doutrina sobre Ela, e Plotino usa novas designações e metáforas para descrever a relação do Uno com os seres. * O Uno a ninguém é exterior — embora se ignore, acompanha a todos os seres; fugir dEle é separar-se de si mesmo. * "O centro da alma (tes psykhés oion kéntron)" — metáfora ilustrada pelo duplo simbolismo do centro das esferas concêntricas e do corifeu que conduz um coro. * "Nesta dança o alma contempla a Fonte de vida e de pensamento, o Princípio do ser, a Causa do bom e a Raiz da alma." * O Uno é simultaneamente Princípio (arkhé) e Fim (télos) da alma. Em Enn. VI,9, pela primeira vez nas lições plotinianas, o caráter da natureza do Bem é estabelecido com exatidão e precisão filosófica — superando coerentemente a tese anterior da Primeira Hipóstase como kalós kai agathós — ajustando-se Plotino à letra do Parmênides e desenvolvendo as virtualidades da doutrina aritmológica das correntes platônico-pitagorizantes, especialmente de Espeusipo. * O termo hen é interpretado dentro de uma doutrina do número implícita no Parmênides, mas desenvolvida desde a Antiga Academia. * "Uno" passa a ser o epíteto que, junto com "Primeiro" e os demais, designa com máxima propriedade a natureza da Primeira Hipóstase.