====== Phronesis, tese de Jaeger ====== //AUBENQUE, Pierre. La Prudence chez Aristote. Paris: PUF, 1997.// * A filologia moderna estabelece o problema da incoerência terminológica em Aristóteles como o fundamento para as hipóteses genéticas de Jaeger sobre a evolução do pensamento do Estagirita. * Aristóteles não teria incorrido em contradições em um mesmo estrato temporal, sendo as variações de significado testemunhos de uma gênese intelectual. * Jaeger aplica esses princípios metodológicos à noção de phronesis em sua obra de 1923. * Os comentadores antigos e medievais mostravam-se pouco preocupados com confrontos críticos entre os textos originais. * A tese de Jaeger postula que o filósofo partiu de uma concepção platônica de phronesis, inicialmente entendida como contemplação voltada ao fundamento da ação justa. * Platão, no Filebo, define a phronesis como contemplação componente da vida boa. * A fase teológica de Aristóteles compreende uma moral teônoma onde Deus, como objeto de contemplação, atua como norma absoluta. * O abandono da teoria das ideias provoca a fragmentação da unidade entre ser e valor, separando a metafísica da ética. * Jaeger situa essa crise intelectual no intervalo entre o Protreptico e a Ética Eudêmia. * Aristóteles conserva a transcendência divina, mas o polo imóvel afasta-se progressivamente das preocupações humanas imediatas. * Na Ética Nicomaqueia, a phronesis perde o significado teórico e torna-se um sentido moral voltado ao útil humano, sem referência à norma transcendente. * A reconstrução de Jaeger organiza textos dispersos ao conferir uma motivação dramática à transição do idealismo especulativo para o realismo prático. * Uma ética da prudência fundamenta-se no distanciamento progressivo das preocupações teológicas e na cisão entre conhecimento metafísico e normas de ação. * Jaeger reduz posteriormente essa mudança a uma decadência das alturas especulativas em direção à virtude popular. * Platão definia a virtude popular como um estágio inferior da excelência moral. * Taylor descreve o percurso aristotélico como o de um platônico que perde a alma. * Péguy associa a evolução da filosofia grega a uma degradação da mística em política. * O percurso da filosofia grega é interpretado como uma oscilação constante entre os ideais de vida contemplativa e vida política. * Parmênides, Anaxágoras e Pitágoras representam o ideal contemplativo pré-platônico, enquanto os sofistas representam o ideal político. * Sócrates realiza a primeira tentativa de conciliação entre especulação e prática. * Platão estabelece a síntese autêntica ao fundar a política no conhecimento das ideias e do Bem. * Aristóteles inaugura a dissolução dessa síntese ao dissociar a vida ética do ideal contemplativo longínquo. * Teofrasto e Dicearco protagonizam, na escola peripatética, a polêmica decisiva entre a vida contemplativa e a vida ativa. * Cícero adota o ideal de vida ativa de Dicearco para assimilar a filosofia grega à cultura romana. * A evolução do termo phronesis reflete a descomposição da unidade platônica em elementos originais, resultando na especialização técnica de sophia para a contemplação. * Sócrates conferiu à phronesis uma entonação de intuição moral teórica. * Platão subordinou a prática à teoria, tornando o termo sinônimo de sophia, nous ou episteme. * Anaxágoras e Pitágoras são citados como exemplos de phronesis no Protreptico e na Ética Eudêmia devido ao caráter contemplativo do termo nesses textos. * Na Ética Nicomaqueia, a phronesis exclui o conteúdo teórico, sendo exemplificada pela figura de Péricles e sua eficácia política. * Anaxágoras e Tales de Mileto passam a ser classificados apenas como sophoi, destituídos da qualidade de phronimos. * A Grande Ética, considerada por Jaeger como uma obra pós-aristotélica, consolida a separação entre prudência e sabedoria, enfatizando a vocação utilitária da primeira. * A separação entre sophia e phronesis é tratada como um dado adquirido no ambiente do Liceu sob Teofrasto. * A prudência é para a sabedoria o que o intendente é para o senhor, gerindo os assuntos inferiores para permitir a contemplação. * Jaeger sustenta que a obra reafirma a ortodoxia aristotélica contra interpretações que visavam o primado da prudência. * Dicearco teria julgado o elogio ao ideal contemplativo como um simples resíduo a ser abandonado em favor da ação. * A doutrina da prudência representa uma etapa na história do ideal filosófico, marcada pela tensão insolúvel entre a superioridade do divino e a necessidade do humano. * A curva do pensamento move-se da contemplação presocrática para a ação sofística, sendo infletida por Sócrates e Platão. * Aristóteles mantém a superioridade de direito da vida contemplativa, mas coloca-a além da condição humana comum. * Os epígonos do aristotelismo abandonam o ideal contemplativo remoto em favor das virtudes da vida política.