====== Uno Positivo ====== //THE ARCHITECTURE OF THE INTELLIGIBLE UNIVERSE IN THE PHILOSOPHY OF PLOTINUS (1967)// Generalizações sobre a filosofia de Plotino são extremamente perigosas. - Qualquer tentativa de análise da arquitetura da realidade precisa ser precedida por algum tipo de declaração abrangente, por mais vaga que seja. - O sistema de Plotino apresenta múltiplas construções da realidade que nem sempre são reconciliáveis entre si. O conceito de Uno é a parte mais desconcertante da filosofia de Plotino. - A dificuldade de expressar o inexprimível não é a única razão para a complexidade desse conceito. - A complexidade da tradição metafísica herdada por Plotino gera uma real confusão de pensamento. - O Uno é o princípio primeiro e último da realidade no sistema plotiniano, mas não pode ser chamado simplesmente de Absoluto. O Uno pode ser considerado como a conclusão da busca por uma Primeira Causa e fundamento do ser. - O Noús pode, em certos momentos do sistema, desempenhar as funções de causa primeira e diretor de todas as coisas. - Há uma forte tendência no pensamento de Plotino a transferir essas funções para o Uno. O Noús é a totalidade do ser, o mundo orgânico das Ideias e a mente que as conhece. - O Noús corresponde ao estágio do conhecimento intuitivo perfeito no microcosmo. - Segundo a psicologia aristotélica, no Noús a mente se torna aquilo que pensa. O Noús não é o fundamento último da realidade, mesmo contendo a totalidade do ser. - O mundo noético é um composto de Matéria e Forma, resultante de um duplo movimento de afastamento e retorno ao Uno. - O Noús está em estado de dependência em relação ao Uno. No tratado VI.8, o Uno é descrito como vontade pura, ato puro e amor. - O Uno é apresentado como causa de si mesmo e, portanto, causa de tudo que dele procede. - A metáfora da luz e a comparação do Uno com o sol aparecem ao longo de todas as Enéadas. Ao fazer do Uno um ato puro e dotá-lo de vontade, Plotino o torna inevitavelmente uma ousía. - Se o Uno é uma ousía, então ele é um uno-múltiplo, ao qual podem ser aplicados predicados. - O Uno como unidade nua, para além do ser, só poderia ser uma causa no sentido de potência que se atualiza no desenvolvimento do universo. Nessa perspectiva, é possível descobrir uma diferença real entre o Noús e o Uno. - Tanto o Noús quanto o Uno são unidades e não-unidades, possuindo autointelecção e autoconcentração. - O Uno parece ser apenas o aspecto do Noús que apresenta sua unidade em vez de sua diversidade. É necessário considerar as Enéadas como um registro da vida espiritual. - A fronteira entre microcosmo e macrocosmo não é rígida e precisa no pensamento de Plotino. - As fronteiras que separam o eu do universo são ilusórias e desaparecem nos estágios superiores da percepção. A distinção entre Noús e Uno torna-se clara quando se considera a vida espiritual. - O Noús é o correlato universal do estado mental mais elevado do ser humano. - O ser humano, na totalidade de seus poderes realizáveis, é muito mais do que alma, podendo se tornar Noús. O Uno é normalmente pensado por Plotino como algo extra, fora e além, que se atinge apenas deixando-se a si mesmo para trás. - O Uno é aquilo que resta fora e transcende a sistematização e classificação do cosmo. - Os efeitos do Uno são algo extra à natureza do Noús, quase sobrenatural. Essa concepção do Uno representa a primeira aparição clara na filosofia grega de um Absoluto diferente em gênero daquilo de que é fundamento. - Plotino é inconsistente nessa concepção, pois o Uno sempre acaba entrando dentro do cosmo. - A teoria da emanação necessária foi projetada para trazer o Uno para dentro do cosmo. - Essa confusão levou ao desenvolvimento posterior do neoplatonismo com o super-Uno de Jâmblico. O Noús é considerado por Plotino como o lar normal e o estado mais plenamente natural do ser humano. - O Noús é certamente deus, mas o Uno se aproxima muito mais da concepção cristã de Deus. - A percepção da identidade com o Uno é um estado temporário e anormal. O aspecto do Uno como Deus não é uma concepção nova de Plotino. - As origens dessa concepção aparecem em Platão, especialmente na menção da Ideia do Bem na República. - A teologia sistemática de Aristóteles está por trás da descrição do Supremo nas Enéadas. - A influência de Aristóteles sobre Plotino é muito grande e talvez não suficientemente reconhecida. Porfírio relata que os escritos de Aristóteles, especialmente a Metafísica, estavam entre os livros usados nas aulas de Plotino. - O ensinamento da Metafísica e do De Anima encontra-se firmemente embutido nas Enéadas. - A semelhança entre o tratado VI.8 e a Metafísica de Aristóteles é muito impressionante. Amônio Sacas, mestre de Plotino, tinha como principal mérito ter reconciliado Platão e Aristóteles. - Os filósofos da renascença platônico-pitagórica tentavam conciliar Platão e Aristóteles. - Havia também uma tradição platônica anti-aristotélica, da qual Ático é o principal expoente. Numento e Albino são os representantes mais notáveis dos platônicos que aristotelizavam. - Numento identifica o deus supremo aristotélico como mente que pensa a si mesma com a fonte das Ideias, a Ideia platônica do Bem. - O Didaskalikos de Albino é uma obra extraordinária que reivindica ser um relato dos ensinamentos de Platão, mas é composta em grande parte por doutrinas de Aristóteles. Numento apresenta um sistema no qual o Primeiro Deus não pode demiurgar e é inativo. - O Primeiro Deus está relacionado com as coisas inteligíveis, enquanto o Segundo Deus está relacionado com as coisas inteligíveis e sensíveis. - O Segundo Deus cria sua própria ideia e o cosmos, sendo a ideia de si mesmo o reflexo do auto-bem. No sistema de Numento, a alma está unida ao bem de maneira indissolúvel. - O Primeiro Deus é simples, estável e não é passível de divisão. - A estabilidade do Primeiro Deus é considerada um movimento inato. Albino, em seu Didaskalikos, combina elementos do Parmênides, da República, da Segunda Carta e da Metafísica de Aristóteles. - O Intelecto Primeiro é descrito como belo, bom, sem qualidade, sem movimento, não sendo gênero, espécie ou acidente. - O Intelecto Primeiro pensa sempre a si mesmo e seus próprios pensamentos, e sua atualidade é sua ideia. A teologia negativa de Albino baseia-se na primeira hipótese do Parmênides. - O Primeiro Intelecto não é mal, não tem qualidade, não é parte ou todo, não se move nem é movido. - O sistema de Albino se proclama platônico, mas é chefiado pelo Deus aristotélico. A fonte dos elementos principais na doutrina do Uno de Plotino é clara. - A fusão dos primeiros princípios de Aristóteles e Platão foi provavelmente auxiliada pela doutrina da Mônada-Noús de Xenócrates. - A concepção de um Primeiro Princípio superior ao Noús e às Ideias coloca Plotino no final de uma tradição de assimilação de Platão e Aristóteles. Há uma diferença notável entre o Noús de Aristóteles e o Uno de Plotino, mesmo em seu aspecto mais aristotélico. - O Uno não apenas pensa a si mesmo, mas também se quer e se ama. - A unidade produzida pelo autoquerer e pelo autoamor é mais estreita e tem menos dualidade do que a produzida pelo conhecimento autodirigido. Essa ideia aparece novamente em Tomás de Aquino. - Tomás de Aquino concebe o conhecimento como um ato unitivo que tende à identificação entre conhecedor e conhecido. - Para Tomás, o Filho é o verbo que espira amor, enviado segundo a instrução do intelecto que irrompe na afeição do amor.