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Rivais

Luc Brisson

Assim como em *Charmides* ou *Lísis*, o diálogo direto é aqui substituído pela narração. A conversa se passa na casa de um professor que ensina leitura e escrita a adolescentes. Dois desses adolescentes discutem sobre astronomia. Sócrates questiona sobre o tema da discussão um jovem que, por acaso, é o amante de um dos dois; este último, para quem só importam os exercícios físicos e que nutre apenas desprezo pela filosofia, é o rival amoroso de outro jovem que, por sua vez, só se interessa pela cultura. Encontramos aqui um confronto entre os dois grandes domínios do ensino tradicional na Atenas de Platão: o exercício físico (gumnastikḗ) e a cultura (mousikḗ). Sócrates então inicia uma discussão sobre o que é a filosofia. A filosofia nada mais é, responde o jovem apaixonado pela cultura, do que a aquisição de conhecimentos sempre novos. Sócrates não tem dificuldade em levá-lo a se contradizer e em mostrar-lhe que o objetivo do filósofo é conhecer a si mesmo. O diálogo termina com a vitória por falta de argumentação daquele que se dedica aos exercícios físicos, uma vitória inesperada e surpreendente num contexto platônico, onde a alma sempre tem preeminência sobre o corpo, mas compreensível desde que a filosofia seja equiparada à cultura geral.

Trasilo situa esse diálogo, cuja qualidade literária é inquestionável, mas cujo conteúdo teórico é limitado, na quarta tetralogia, ao lado dos dois Alcibiades e de Hiparco, embora já expresse dúvidas sobre sua autenticidade (Diogênio Laércio IX, 37). O autor de Os Rivais, que certamente leu o Charmide, não pode ser situado com precisão no tempo. Não obstante, a crítica à filosofia entendida como cultura geral ataca posições defendidas já na época de Platão, notadamente por Isócrates.

Gredos

Ao contrário dos diálogos anteriores, o autor fez um esforço genuíno para conferir-lhe maior interesse literário e dramático, embora, nesse aspecto, não se compare ao melhor de Platão. Sócrates é o narrador e quem descreve a cena, que se passa em uma escola. A narrativa substitui o drama, e a entrevista não é encenada, mas contada. A encenação lembra, logo no início, o Carmides e o Lisís. O título faz alusão aos outros interlocutores, que são rivais pelo afeto de dois dos jovens. O próprio Trasilo, que o incluiu em sua quarta tetralogia, ao lado dos dois Alcibiades e do Hiparco, já tinha dúvidas sobre sua autenticidade, como nos conta Diógenes Laércio (IX 37). Entre os críticos modernos, salvo pouquíssimas exceções, considera-se apócrifo. Embora não careça de originalidade, Souilhé (págs. 107-110) vê nele a mão de um imitador e considera muito difícil atribuir a Platão um escrito tão diferente de seu estilo habitual. Seja quem for seu autor, não lhe falta audácia. A questão que ele levanta em suas poucas páginas é nada menos do que a seguinte: o que é a filosofia? (133cl). O interlocutor refugia-se primeiro na erudição ou no conhecimento de todas as artes. Reconhecendo que isso é irrealizável, ele limita-a ao que convém que um homem culto saiba, o que requer inteligência, não habilidade manual. Convencido de que é impossível dominar duas artes, ele replica que o filósofo (a quem identifica, sem dúvida, com o ideal humano de homem de cultura geral, como Péricles) não precisa ser um profissional ou especialista em qualquer arte, mas sim capaz de acompanhar os especialistas, o que o torna como um pentatleta, que pode ser o segundo em cada uma das cinco competições, mas não é o primeiro em nenhuma. Eles concordam que a filosofia é boa e, por isso, útil, mas qual é a utilidade, por exemplo, de um conhecimento de medicina inferior ao conhecimento de um médico? O doente precisa sempre do médico antes do filósofo. Sócrates toma a palavra para mostrar que a arte de tornar os homens melhores depende, em primeiro lugar e acima de tudo, do conhecimento do bem e do mal, incluindo a si mesmo. Isso equivale a possuir as virtudes da justiça e da sophrosýne, que é o autoconhecimento. De tais virtudes depende todo bom governo, seja o das cidades, seja o das casas. De fato, tudo o que chamamos de rei, homem de Estado, chefe de família, senhor (de escravos), sóphron e homem justo são uma mesma coisa e praticam a mesma arte. Essa arte é a única na qual o filósofo deve ser, sem dúvida, não um vice-campeão, mas o primeiro.

A mensagem deste diálogo é genuinamente platônica, do tipo mais socrático, e sua semelhança com outros diálogos pode ser explicada admitindo-se que ele seja um esboço do qual o Carmides, por exemplo, seria uma ampliação e aprofundamento. A identificação entre “bom” e “útil” é tipicamente socrática, e a impossibilidade de conhecer um atributo de algo sem conhecer sua essência (133b) é ampliada no Menón; o argumento de que não se pode dominar devidamente mais do que uma habilidade é basicamente o da República, que também afirma que a sabedoria filosófica não reside em nenhuma das artes especiais.

Souilhé nega que Platão tenha identificado a filosofia com a justiça e o governo das casas e das cidades. É precisamente o que ele fez com o ideal do governante filósofo, que viu unido sobretudo na singular figura de Sócrates. Se o diálogo não fosse de Platão, poderia-se insinuar, sem prejudicar a verossimilhança, que o título e os interlocutores contêm uma sugestão do filósofo (Sócrates) no ápice de tudo o mais, o ideal do amor.

Souilhé supõe que se trata de um produto da Academia sob a direção de Polemón, quando passou da especulação pura para a vida prática. Mas, ele se pergunta, quando é que Platão deixou de se interessar pela vida prática?

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