Parmênides
Luc Brisson. Platon.
O Parmênides continua sendo o mais enigmático de todos os diálogos de Platão, aquele que deu origem ao maior número de interpretações divergentes. Desde a Antiguidade, não se conseguia explicar nem como as duas partes que o compõem poderiam constituir uma unidade, nem qual era o tema da segunda parte. Começou-se por se interessar pela primeira parte, na qual Parmênides expõe as dificuldades relativas à participação das coisas sensíveis nas formas inteligíveis, das quais elas são apenas imagens; a questão mais disputada entre os platônicos era, então, saber sobre o que existiam as Formas. A segunda parte também atraiu a atenção dos intérpretes antigos: tratava-se de uma disputa dialética entre Sócrates e Parmênides com base nos argumentos de Zenão, um exercício lógico, uma ginástica destinada a fazer compreender as dificuldades associadas a uma ontologia tão particular quanto a de Platão? Com o neoplatonismo, tudo mudou. A segunda parte do Parmênides tornou-se um manual onde se expunha a teologia de Platão, que tinha como princípio supremo o Um identificado com o Bem. Foi essa interpretação que ganhou as graças do Renascimento e que chegou até nós. Mas, após a Segunda Guerra Mundial, foi sobretudo a primeira parte que interessou aos intérpretes que desejavam encontrar nela a confirmação do abandono, por Platão, da doutrina das Formas, que teria sido substituída por uma teoria do conceito.
A interpretação aqui proposta é mais modesta, pois adota uma perspectiva histórica. O diálogo apresenta o jovem Sócrates defendendo a doutrina das Formas diante de Parmênides, que veio a Atenas com seu discípulo e amigo, Zenão, o qual, no início do diálogo, lê uma parte do livro que acabara de compor. Na primeira parte, Parmênides levanta contra a doutrina das Formas uma série de objeções, notadamente a famosa do “terceiro homem”, às quais Sócrates não consegue responder de forma satisfatória. É por isso que, na segunda parte do diálogo, Parmênides dá a Sócrates um exemplo de discussão dialética, examinando a hipótese que é sua e que Zenão defende. Nessa perspectiva, a segunda parte do Parmênides deve ser considerada como um testemunho sobre Parmênides e Zenão, e, portanto, sobre uma cosmologia anterior à do Timeo, mas da qual Platão fez uso, transformando-a de maneira radical. Encontramos ali, aliás, um problema que permanece atual: podemos falar de universo, entendendo por isso a unidade que formariam todas as coisas que nos cercam, e cuja multiplicidade esmagadora escapa a todos os esforços da compreensão humana?
