Robin Waterfield (3)
WATERFIELD, Robin. Why Socrates Died: Dispelling the Myths. 1st ed ed. Erscheinungsort nicht ermittelbar: W. W. Norton & Company, Incorporated, 2009.
A acusação de impiedade
1. Todos os julgamentos atenienses por acusações sociais como a que Sócrates enfrentou eram potencial ou evidentemente políticos, cabendo aos dicastas avaliar tanto se o réu era bom cidadão e se sua condenação ou absolvição serviria melhor à cidade quanto sua culpa específica, sendo a impiedade acusação amorfa que abria margem justamente para esse tipo de julgamento do homem, não apenas do crime.
2. Outros filósofos residentes em Atenas, como Aristóteles de Estagira e Teofrasto de Ereso, foram posteriormente ameaçados de processos por impiedade quando a verdadeira questão era seu apoio ao domínio macedônio, tendo Aristóteles fugido com referência irônica ao julgamento de Sócrates, enquanto Teofrasto, processado, foi absolvido.
3. Outros julgamentos atenienses por impiedade ocorreram em época próxima à de Sócrates, notadamente os de Andócides e Nicômaco, sendo arriscado inferir uma reação conservadora generalizada a partir do conhecimento fragmentário que possuímos, embora o consenso acadêmico reconheça em ambos os casos motivações de vingança política.
4. Nicômaco, homem de talento considerável que ascendera de escravo público a membro da comissão encarregada em 410 a.C. de reorganizar as leis atenienses, foi acusado de inovações que prejudicaram certos ritos religiosos, somando-se a isso acusações de comportamento antidemocrático, reforçando a suspeita de que os julgamentos por impiedade frequentemente ocultavam agendas políticas.
5. O corolário disso é o grau em que o povo ateniense detinha poder sobre assuntos religiosos, já que, sendo a religião grega largamente não dogmática, o sacerdócio constituía posição herdada ou sorteada e não vocação, cabendo à assembleia popular, e não aos sacerdotes, garantir a boa vontade divina e autorizar novos cultos e edifícios sagrados.
6. Ateniense visível, feio, loquaz e combativo, Sócrates já atraíra a atenção de poetas cômicos e da rua, sendo provável que muitos dicastas já tivessem formado opinião sobre ele apesar do juramento de considerar apenas as acusações presentes, facilitando-se assim o mal-entendido sobre suas verdadeiras convicções religiosas.
A religião ateniense
7. A acusação de impiedade contra Sócrates não deve ser confundida com heresia, pois a religião grega antiga carecia de texto sagrado, corpo doutrinário elaborado ou hierarquia sacerdotal profissional, sendo largamente ritualística e assumida automaticamente como obrigação comunitária.
8. O principal meio de comunicação com os deuses consistia em oferendas e orações baseadas em reciprocidade, variando os sacrifícios animais conforme a ocasião, complementados por libações domésticas diárias de pão, grão, óleo, leite ou vinho.
9. Libações e sacrifícios costumavam vir acompanhados de orações, música e incenso, dirigindo-se aos deuses com humildade e lembrando-lhes as obrigações recíprocas decorrentes da devoção do suplicante.
10. Além dos rituais diários e de crise, o calendário cívico grego era marcado por festivais de diversos públicos, envolvendo procissões, danças, hinos, sacrifícios e refeições comunitárias, sendo estas ocasiões frequentes de consumo de carne no mundo grego.
11. A adivinhação constituía elemento importante da religião grega, interpretando-se sinais diversos, sendo a consulta a um oráculo, sobretudo em Delfos, a forma mais relevante desse recurso, cuja fama internacional dependia da qualidade reconhecida de suas interpretações.
12. A pessoa pia era aquela que cumpria sua parcela de rituais, assentando-se essa prática sobre um mínimo de crenças raramente articuladas, entre elas a de que os deuses se preocupavam com os seres humanos, conheciam mais e eram mais poderosos que os mortais, e de que arrogância e excesso seriam eventualmente punidos.
13. A piedade exigia fundamentalmente a crença na existência dos deuses, sendo ação ritual e crença tomadas como mutuamente sustentadoras, o que se reflete na ambiguidade da própria acusação contra Sócrates, traduzível tanto como não reconhecer os deuses quanto como deixar de cumprir os ritos costumeiros, levando tanto Xenofonte quanto Platão a tratarem Sócrates como suspeito de ateísmo declarado.
14. Ateísmo e agnosticismo, em sentidos reconhecíveis hoje, eram respostas possíveis mesmo dentro da base ritualística da religião grega, sendo a impiedade crime grave porque a prosperidade coletiva de Atenas dependia da boa vontade divina, associando-se indissoluvelmente patriotismo e piedade, o que Sócrates bem sabia ao comparecer perante o tribunal sob tais acusações.
Agnosticismo e ateísmo
15. O ateísmo, ou ao menos a descrença nos deuses tradicionais, difundiu-se mais amplamente no século IV, mas já no século V existiam pensadores precursores em uma época de menor flexibilidade religiosa geral.
16. Entre os contemporâneos de Sócrates, Protágoras de Abdera expressa célebre agnosticismo quanto à existência dos deuses, abrindo caminho para a posição de Pródico de Ceos, que reduzia os deuses a fenômenos naturais importantes, enquanto Demócrito de Abdera negava sua imortalidade e atribuía a religião ao medo, Trasímaco de Calcedônia argumentava a partir da injustiça patente do mundo, e Diágoras de Melos, tido por ateu paradigmático, precisou fugir de Atenas para escapar de julgamento.
17. A frequência com que personagens de obras literárias expressam ateísmo demonstra a circulação dessas ideias na Atenas de fim do século V, sendo Eurípides notável por incluir tais desafios em suas peças, chegando a sugerir que a própria noção dos deuses fora invenção humana calculada para conter crimes secretos, fundando a religião numa mentira deliberada de controle social.
18. Quase todos os argumentos mais potentes contra a existência divina ou a validade do culto já haviam sido empregados por contemporâneos de Sócrates sem gerar processo, agravando o enigma de por que precisamente ele foi levado a julgamento, exigindo investigação mais profunda das razões reais.
A piedade socrática
19. Não é possível reconstruir com absoluta certeza a concepção socrática de piedade, mas os escritores socráticos, comprometidos com uma espécie de escrita quase factual, permitem utilizar com confiança, ainda que parcial, o testemunho de Platão e Xenofonte.
20. Se Sócrates foi ímpio, ou deixou de cumprir obrigações rituais ou negou um dos três pilares centrais do culto grego, sendo mais provável, segundo Xenofonte, que cumprisse regularmente seus sacrifícios domésticos e públicos, suspeitando-se de impiedade antes por suas crenças do que por suas ações.
21. A visão socrática dos deuses assentava-se fundamentalmente na crença de que eram sempre e apenas bons, ilustrando Xenofonte essa bondade por meio do argumento do desígnio, segundo o qual o mundo foi organizado de modo útil aos seres humanos.
22. O Sócrates platônico mostra como essa crença na bondade essencial dos deuses colidia com o pensamento grego corrente, que lhes atribuía também males como pragas e terremotos, sendo, contudo, essa ênfase na bondade divina posição no máximo levemente excêntrica, e não motivo plausível de acusação.
23. Uma consequência mais promissora dessa crença é a rejeição socrática de muitas histórias tradicionais sobre os deuses por retratá-los comportando-se imoralmente, posição partilhada por diversos contemporâneos, incluindo Eurípides, sem que nenhum deles sofresse processo por isso.
24. Os gregos não tomavam essas histórias como dogma literal, permitindo-se ampla licença poética e interpretação metafórica das características divinas, o que sugere que a descrença socrática no nível literal dos mitos não bastava para configurar impiedade.
25. Resta considerar se a crença na bondade divina levaria Sócrates a rejeitar o sacrifício, questão que se resolve ao observar que sacrifício e oração podiam visar pedir algo bom aos deuses sem se reduzirem a comércio vulgar, sendo o sacrifício socrático descrito como modesto e voltado apenas ao que fosse efetivamente bom.
26. Sócrates buscava depurar a tradição de sua vulgaridade, contrapondo-se a concepções que mediam a piedade pela magnitude das oferendas, como evidenciam passagens de Platão e do orador Isócrates sobre a reputação obtida por meio de sacrifícios abundantes.
27. Era também aceitável, dentro da religião grega padrão, pedir aos deuses ajuda para prejudicar inimigos, e acreditava-se possível redimir pecados por meio de sacrifícios generosos, crenças confusas que Sócrates igualmente rejeitava.
28. Sócrates pregava moderação e simplicidade no trato com os deuses, vendo-se como servo divino empenhado em promover a felicidade humana através do exame doloroso de si mesmo e dos outros, identificando piedade com a promoção da virtude, e não com a conformidade irrefletida a rituais.
29. Esses pensamentos não convencionais tendiam a marginalizar os rituais tradicionais, tornando irrelevantes orações e sacrifícios que não visassem a felicidade, a gratidão ou a orientação, como ilustra a oração socrática registrada por Platão pedindo beleza interior e riqueza moderada.
30. Os deuses não existiam para satisfazer desejos triviais, mas para auxiliar na obra de autoaperfeiçoamento, sendo os homens instrumentos da vontade divina na terra, análoga à noção homérica de dupla causação, na qual um ato pode ser simultaneamente do agente e do deus.
31. Sócrates patinava sobre gelo fino sem ser propriamente ímpio, mas o protocolo do tribunal ateniense impossibilitava explicar aos dicastas, em pouco mais de uma hora, uma concepção divina depurada demais para ser prontamente aceita, evitando por isso, na defesa platônica, abordar diretamente a acusação de não reconhecer os deuses da cidade.
32. Havia algo estranho na própria acusação, pois não existia conjunto específico de divindades que os cidadãos atenienses fossem obrigados a cultuar entre as cerca de duas mil existentes em Ática, de modo que os acusadores devem ter usado a acusação para insinuar ateísmo total, insinuação difícil de provar mas também difícil de refutar perante o tribunal.
33. Os acusadores exploraram concepções populares e equívocos sobre Sócrates e seus seguidores, retratados pelos poetas cômicos como seita mística, associando-o a pitagóricos e a transes, ainda que soubessem ser difícil condená-lo apenas pela acusação vaga de impiedade, daí especificarem a introdução de novos deuses.
Introduzir novos deuses
34. Sócrates não foi o último acusado de introduzir novos deuses na história ateniense, mas foi o primeiro, o que surpreende dado o grande número de novos cultos introduzidos no século V, incluindo divindades associadas à vitória sobre os persas, personificações abstratas, e cultos vindos de outras regiões gregas ou do Oriente Próximo.
35. Por volta de 450 a.C. o povo assumira o direito de introduzir novos deuses mediante consulta oracular ou epifania autêntica, cabendo à Assembleia a sanção final, justamente porque a introdução de novos deuses poderia deslocar os antigos, dos quais dependia a prosperidade da cidade.
36. Isso ainda não basta para condenar Sócrates, pois seitas menores escapavam ao controle oficial sem qualquer ação legal contra seus devotos, e ninguém poderia imaginar que Sócrates pretendesse introduzir culto de adoração em larga escala.
37. Três outros julgamentos por introdução de novos deuses, todos posteriores no século IV, envolveram a cortesã Frine, o político Demades e a sacerdotisa Nino, sugerindo que tal acusação só prosperava quando o indivíduo ou culto já era suspeito por outras razões, restando indagar por que a acusação contra Sócrates soava sequer plausível.
38. A única candidata plausível a essa nova divindade é o daimonion sēmeion, o pequeno sinal sobrenatural que Sócrates ouvia desde a infância, interpretado tanto por Platão quanto por Xenofonte como contato direto com o divino, fenômeno de caráter proibitivo e profético.
39. Xenofonte apresenta a escuta dessa voz como não mais ímpia que qualquer outra forma de adivinhação, avaliação essencialmente correta, embora essa divindade privada e amistosa parecesse privilegiar Sócrates de modo antidemocrático, tema explorado também por Aristófanes contra os deuses privados dos cientistas cômicos.
40. A voz sobrenatural de Sócrates era aparentemente bem conhecida em Atenas, podendo os acusadores, com o auxílio dos boatos sobre seus transes, apresentá-lo como uma espécie de profeta sem vínculos cívicos, ministro de um deus desconhecido que dispensava os rituais habituais, já que Sócrates nunca especificava a origem divina dessa voz.
41. Nada havia claramente criminoso ou ímpio na voz sobrenatural socrática, mas os acusadores usaram-na para reavivar antigos preconceitos, associando-a às práticas dos cientistas que substituíam o panteão olímpico por forças naturais, retratando Sócrates como acólito arrogante de um deus não reconhecido pelo Estado.
42. A flexibilidade dos procedimentos legais atenienses fazia com que o réu raramente fosse julgado apenas pelo crime específico indicado, mas por toda a sua vida cívica, de modo que, mesmo concedendo-se substância considerável à acusação de impiedade, isso não exclui um pano de fundo político, articulando-se antes com ele, restando, se pouca substância houver de fato na acusação de impiedade, buscar alhures as razões reais pelas quais Sócrates foi levado a julgamento.
