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Romano Guardini

Romano Guardini. The Death of Socrates. London, 1948.

1. O julgamento de Sócrates, em 399 a.C., ocorreu em um contexto histórico e político marcado pela derrota de Atenas na Guerra do Peloponeso, pela instabilidade política com o regime dos Trinta Tiranos e pela restauração da democracia, que se sentia ameaçada e via com suspeita qualquer corrente de pensamento que pudesse ser interpretada como perigosa para o Estado.

2. A situação moral e religiosa era igualmente difícil, pois as guerras trouxeram desordem, o desenvolvimento intelectual abalou as ideias religiosas tradicionais e a sofisticação, juntamente com o culto ao sucesso, conspiraram para produzir uma desordem religiosa e ética; como a vida religiosa estava intimamente ligada à vida do Estado, um ataque à tradição religiosa podia ser visto como um ataque ao próprio Estado.

3. Sócrates tinha uma posição peculiar em relação a tudo isso, pois, embora cumprisse seus deveres cívicos e respeitasse os usos religiosos, estava completamente sozinho em sua missão e compulsão interior, que consistia em levantar a questão “O que é isso?” diante de tudo o que reivindicava validade, afrouxando assim o apego à tradição ao exigir uma prestação de contas baseada na razão.

4. Os atenienses o acusaram por causa dessa atividade, e os três acusadores formais, Mêleto, Ânito e Lícon, representavam, na verdade, todos aqueles que se preocupavam em defender a tradição; o julgamento ocorreu no tribunal supremo, composto por quinhentos juízes sorteados, e a obra de Platão consiste nos três discursos que Sócrates fez nas etapas prescritas do julgamento.

5. O PRIMEIRO DISCURSO: A PERSPECTIVA ESPIRITUAL

  • O conjunto é um drama poderoso, e a preocupação real de Platão é tornar visíveis as forças que lutavam pelo domínio; a defesa de Sócrates é estranha, pois ele apresenta seu caso não apenas para o tribunal terreno, mas perante um tribunal espiritual: Apolo, sua própria consciência e o tribunal da Verdade.
  • Na introdução, Sócrates ironiza a acusação de ser um hábil orador, afirmando que falará a verdade nua e simples, e pede aos juízes que se concentrem não no estilo, mas na justiça de suas palavras; ele distingue entre os acusadores formais e as calúnias antigas e difusas de muitos que o veem como um inovador perigoso.
  • Sócrates se defende da acusação de investigar coisas celestes, negando ter a ver com tais assuntos e desafiando qualquer um que o tenha ouvido discorrer sobre eles a testemunhar; ele também nega ser um professor de jovens que cobra por isso, afirmando que não possui tal conhecimento.
  • Para explicar a origem de sua reputação, Sócrates conta a história do oráculo de Delfos, que o declarou o mais sábio dos homens; para entender o oráculo, ele examinou políticos, poetas e artesãos, descobrindo que aqueles com fama de sábios na verdade não o eram, enquanto ele, sabendo que nada sabia, era mais sábio que eles.
  • Essa atividade de exame lhe rendeu muitos inimigos, e os jovens, divertindo-se com isso, passaram a imitá-lo, ampliando o fosso entre as gerações; as acusações que circulavam contra ele eram as de se arrogar conhecimento sobre o oculto, ensinar o culto a deuses de maneira contrária ao uso comum e corromper a juventude.

6. A ACUSAÇÃO DOS TRÊS

  • Sócrates volta-se para a acusação formal de corromper a juventude e não acreditar nos deuses da cidade, e a refuta continuando sua atividade de exame, tratando Mêleto como alguém que finge saber sem realmente saber; ele pergunta a Mêleto quem melhora os jovens e, após uma série de perguntas, mostra que, se todos os atenienses melhoram os jovens exceto ele, isso é tão absurdo quanto a ideia de que a maioria das pessoas melhora os cavalos, sendo o contrário a verdade.
  • Sócrates argumenta que, se ele corrompe os jovens, é por ignorância, e a lei não pune tais faltas involuntárias, mas exige instrução; ele também refuta a acusação de ateísmo, mostrando a contradição de acusá-lo de não acreditar nos deuses e, ao mesmo tempo, de introduzir novas divindades, pois se ele acredita em coisas divinas, ele acredita em divindades.
  • A tragédia da situação reside no choque entre duas forças legítimas: Sócrates, que traz novas verdades, e seus acusadores, que defendem um mundo de valores em declínio, mas ainda valioso; Sócrates atribui sua condenação, se ocorrer, não a Mêleto ou Ânito, mas ao preconceito da multidão.
  • Sócrates declara que não abandonará sua missão filosófica, mesmo que isso lhe custe a vida, pois deve obedecer a Deus antes que aos homens; ele se vê como um “mutuca” enviado por Deus para despertar a cidade, e sua pobreza é a prova da sinceridade de sua missão.
  • Sócrates explica que seu “sinal divino” (daimonion), uma voz que o dissuade de ações erradas, o impede de participar da política; essa experiência religiosa, que nunca o incita, mas apenas o proíbe, é fundamental para sua autoridade e para a compreensão de sua missão como algo sagrado.
  • Como prova de que não age por covardia, Sócrates relembra sua oposição ao julgamento ilegal dos generais em Arginusas e sua recusa em prender Leão de Salamina sob os Trinta; ele nunca foi professor de ninguém, mas apenas conversava com quem o procurava, e seu poder de atração não é prova de corrupção.
  • Sócrates não adotará os métodos habituais de apelar para a piedade dos juízes, pois isso seria desonroso para sua idade e reputação, e violaria o juramento do juiz; ele acredita nos deuses como nenhum de seus acusadores e confia sua causa a Deus e aos juízes.
  • A piedade, segundo Sócrates, consiste em esforçar-se para apreender o divino, não se apegando a ideias tradicionais, mas buscando sua essência; isso implica obediência ao comando divino na atividade da vida, mesmo em conflito com o ambiente, e vigilância para o comando numinoso, como demonstrado por seu daimonion e pela obrigação de obedecer às leis do Estado, vistas como algo divino.

7. O SEGUNDO DISCURSO: A PROPOSTA ALTERNATIVA

  • Após o veredito de culpado por uma estreita maioria, Sócrates tem a oportunidade de propor uma pena alternativa; em vez de uma multa ou exílio, ele propõe algo que considera merecer: ser mantido às custas públicas no Pritaneu, uma honra concedida a benfeitores da cidade e vencedores olímpicos.
  • Essa proposta, longe de aplacar os juízes, soa como provocação e insolência, sugerindo que Sócrates não se arrepende e até reivindica uma recompensa por seus serviços; ele justifica seu pedido dizendo que, enquanto os vencedores olímpicos apenas dão a ilusão de felicidade, ele torna os atenienses realmente felizes.
  • O leitor pode sentir que, embora Sócrates seja inocente das acusações formais, há um sentido trágico em que ele é “culpado” por ameaçar valores estabelecidos, e sua postura desafiante parece buscar a realização extrema de sua missão através da ruína e da morte.
  • Sócrates sabe que sua proposta é ousada, mas a mantém; ele prefere a morte a um mal que conhece, como a prisão ou o exílio, e, pressionado por amigos, acaba propondo uma multa de trinta minas, com fiadores, mas o destino do julgamento já está selado.

8. O TERCEIRO DISCURSO: A RESPOSTA À SENTENÇA

  • Condenado à morte pela cicuta, Sócrates profetiza que seus algozes sofrerão com a má reputação e que a luta espiritual que ele começou continuará através de seus discípulos; a única maneira de se livrar das censuras é tornar-se melhor, e não matar aqueles que as proferem.
  • Dirigindo-se aos que votaram pela absolvição, Sócrates interpreta o ocorrido: seu sinal divino não o advertiu em momento algum durante o julgamento, o que prova que a morte que o espera não é um mal, mas um bem; a morte é ou um sono sem sonhos, um ganho inestimável, ou uma migração para outro lugar onde ele poderá continuar seu exame entre os grandes do passado, um prazer infinito.
  • Sócrates afirma que nenhum mal pode acontecer a um homem bom, em vida ou após a morte, e que seus assuntos não são negligenciados pelos deuses; ele não guarda rancor de seus acusadores, pois está convencido de que a morte é melhor para ele, embora ainda os critique por suas más intenções.
  • Ele faz um pedido final: que, quando seus filhos crescerem, eles sejam punidos e incomodados da mesma forma que ele incomodou os atenienses, caso se preocupem mais com riquezas do que com a virtude; com a sentença final, ele se despede, afirmando que somente Deus sabe se a vida ou a morte é melhor.
  • A Apologia apresenta a morte não como um mal a ser temido, mas como algo que deve ser enfrentado com coragem; o silêncio do sinal divino é interpretado como uma garantia de que a morte é boa, e a crença na imortalidade e na continuação do trabalho filosófico no além é apresentada como uma consequência natural da missão de Sócrates, que encontra sua ratificação eterna.
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