Alma e Corpo
É necessário investigar as causas que colocam a alma em relação com o corpo, a natureza e o modo dessas relações, e definir o que é o vivente que nasce dessas relações.
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O vivente pode ser o corpo organizado, a mistura do corpo e da alma, ou uma terceira coisa nascida desses dois.
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Não se deve deixar enganar pelas habituais expressões de que a alma está no corpo, pois sendo a alma invisível, conclui-se erroneamente que o princípio do movimento e da sensibilidade está dentro do corpo.
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Se a alma fosse visível, ver-se-ia que é ela quem envolve todo o corpo da vida, penetrando-o igualmente por inteiro em todas as suas partes, sendo então o corpo que está na alma que o envolve.
Não se deve tomar literalmente os termos que expressam a entrada da alma no corpo, pois isso supõe uma sucessão temporal que não existe realmente.
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Nunca houve um tempo em que o universo e o corpo estivessem sem alma, nem a matéria sem forma, pois a inteligibilidade é a marca e a natureza do ser.
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A razão pode separar idealmente, no pensamento, coisas que na realidade estão sempre unidas, decompondo-as por terem elas uma composição.
É necessário não colocar de um lado as Ideias e as formas e de outro a matéria, fazendo a vida e a luz virem de um lugar desconhecido para dentro da matéria.
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Termos separados como “longe” e “à parte”, aplicados a essas coisas, seriam palavras vazias, e o modo de sua participação seria incompreensível ou muito obscuro.
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A separação das duas essências, do corpo e da alma, só pode ser operada pela filosofia, assim como só é concebível por um ato da razão que se contempla a si mesma.
Plotin admitiu uma existência real da alma puramente incorporal, para quem a incorporação é uma queda e uma decadência.
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Antes de descer ao corpo, a alma vivia distinta e unida à alma universal, chamada por vezes de sua mãe e outras vezes de sua irmã.
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As afirmações de Plotin são contraditórias e difíceis de conciliar, podendo-se supor que a hipótese de uma existência separada da alma pertencia mais ao elemento religioso da doutrina.
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Não há, na realidade, uma oposição de essência entre a matéria e a forma, entre o corpo e o espírito, mas apenas uma diferença de graus, de modo que se pode dizer que a alma entra num corpo sem nunca ter estado sem corpo.
Comumente se diz que a alma está no corpo, mas é o contrário que ocorre, pois é a alma que criou para si seu próprio lugar, ou seja, seu corpo.
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A alma universal não veio a lugar nenhum, pois não havia lugar para onde ela pudesse se dirigir, tendo apenas esboçado um corpo e começado a organizá-lo.
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A alma individual, ao querer se desprender da alma universal, encontrou um lugar pronto para recebê-la, sobre o qual lançou um segundo olhar, criando-o verdadeiramente ao dar-lhe forma e figura.
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É a alma que contém e sustenta o corpo, sendo o corpo que é contido e como que abraçado pela alma, de modo que se deveria dizer que o corpo está na alma.
Ao se admitir a fórmula ordinária de que a alma está no corpo, é preciso fazer a reserva de que ela nunca está inteiramente nele, pois uma parte dela permanece sempre no mundo inteligível.
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O modo de presença da alma no corpo, ou do corpo na alma, é o que se deve saber, sendo este relatório produzido por três causas: uma atração livre e inclinação voluntária, a causa toda-poderosa e fatal das coisas, e a intenção de pôr ordem e beleza no mundo dos corpos.
A alma nunca está realmente no corpo, pois ela vive em si e por si, vivificando o corpo que contém na forma, no ser e na unidade.
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A alma não pode sofrer por estar misturada a nenhuma outra substância, pois não se concebe como duas substâncias diferentes poderiam se unir a ponto de se tornarem uma só.
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Tudo o que é substancial permanece, por essência, puro de mistura, sendo a propriedade de todo ser, ao contrário, conservar-se a si mesmo.
A alma não está no corpo como em um lugar ou em um vaso, pois o lugar é um continente de corpos e, onde uma coisa é dividida, é impossível que o todo esteja em cada parte.
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A alma está em cada parte do corpo, não podendo, portanto, ser contida no lugar, sendo antes o continente de seu corpo.
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A alma não está no corpo como a qualidade na substância, pois então ela seria apenas um estado do corpo inseparável dele, quando se sabe que, ao contrário, ela é separada.
A alma não está no corpo como a parte no todo, nem como o todo na parte, nem como a forma em uma matéria, pois a forma de uma matéria é inseparável dela e implica a existência anterior da matéria que ela informa.
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É a alma que produz a forma do corpo, sendo, portanto, diferente dessa própria forma.
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Dizer que a alma é uma forma não engendrada, porém separável, não explica claramente como essa forma está no corpo nem como ela se une a ele podendo dele se separar.
A alma não faz uma mistura com o corpo, pois, se esse mistério pudesse se operar, o corpo se tornaria melhor, enquanto a alma se tornaria pior, participando das fraquezas do corpo e perdendo a vida ao dá-la.
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O corpo quer não ser simplesmente um corpo, mas um corpo sensível, o que só é possível se for vivificado pela alma, tornando-se capaz de sofrer, gozar, desejar e sentir.
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A pretensa mistura entre alma e corpo, sendo naturezas heterogêneas, é impossível, não se concebendo nenhum modo de mistura entre elas.
A comparação da alma com o piloto em seu navio ou com a arte que se serve de seus instrumentos se aproxima da verdadeira solução, mas não a dá por completa.
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O piloto está acidentalmente em seu navio, é dele separável e não está presente em todas as partes, ao passo que a alma é como um órgão natural construído pela natureza.
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Dessa longa discussão resulta com certeza que a alma não é inerente ao corpo, sendo mais exato dizer que o corpo está presente à alma do que o contrário.
A diferença das essências e sua separação não excluem a possibilidade dessa espécie de presença, havendo graus na intimidade desse relatório.
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O modo como as coisas sensíveis estão presentes às inteligíveis e as inteligíveis às sensíveis é diferente do modo como as inteligíveis estão presentes umas às outras.
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A relação não é uma presença indiferente, inerte ou morta, mas uma comunicação pela qual a alma se dá ao corpo e faz dele um ser vivo.
Se a alma se desse a outro, dando sua substância, ela a perderia e o animal se tornaria um composto de alma e corpo, o que aniquilaria a natureza da alma.
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A alma não pode sofrer nenhuma mistura nem modificação passiva, permanecendo sempre ela mesma, não podendo, portanto, se dar ao corpo.
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A alma dá apenas algo de si mesma, algo que lhe é inferior e que se pode chamar de sua imagem e sombra, criando-o antes de o dar, sendo esse produto, a vida, uma forma inferior de vida.
Todo ser vivo, chegando à sua perfeição respectiva, tende necessariamente a comunicar algo de sua perfeição às coisas colocadas abaixo dele, sendo essa uma lei universal.
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A alma é naturalmente impelida por um instinto interno a animar tudo e a fazer viver as outras coisas, possuindo uma dupla potência: uma pela qual age sobre si mesma e outra pela qual age sobre outra coisa.
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A alma vive na razão, dando ao corpo uma imagem da razão que ela possui, e como possui as razões de tudo, o mundo criado por ela tem todas essas razões e até mesmo uma espécie de divindade.
Cada ser tem um ato que é a sua semelhança, cuja fonte é uma superabundância de vida que quer se espalhar e irradiar, sendo esse a necessidade o princípio de sua atividade geradora.
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Os princípios superiores criam suas hipóstases, ou seja, seus atos substanciais e permanentes, sem se mover, mas a alma se move quando engendra a vida de sensação e a vida vegetativa.
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A alma que está em nós possui igualmente essa hipóstase, sensação e natureza, sendo que nos vegetais essa dupla natureza domina e reina sozinha.
O ato da alma pura, em si, da alma superior, é uma verdadeira geração, engendrando uma outra espécie de alma, a alma segunda ou irrazoável, a vida fisiológica que permanece no corpo.
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Quando o corpo é destruído, a alma que lhe dava a vida não é destruída com ele, pois ela é a imagem e o ato da alma superior, de sua natureza eterna.
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Descer e inclinar exprimem o movimento da alma pelo qual o inferior, iluminado pela alma, vive de uma vida comum com ela, cessando quando o elemento corporal não está mais ali para receber, como um espelho, os raios vivificantes de sua luz.
A alma, tendo em si a luz eterna da vida, dá-a às coisas que lhe são inferiores, e, como estas são eternamente contidas e como que regadas por essa luz, elas gozam da vida na medida de sua potência própria.
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A atividade da alma é uma verdadeira geração, cujo produto é a potência vegetativa, vindo essa geração da natureza da alma em que a vida transborda, pois toda vida vem da vida.
A alma não engendra apenas por uma necessidade fatal de sua natureza, mas também por um sentimento moral quase voluntário, embora inconsciente, que é a inclinação ou o amor.
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Mesmo antes de vir à geração, a alma tinha algo que a levava a isso, pois ela jamais entraria num corpo se não tivesse uma potência inclinação a padecer, conhecer e gozar as paixões corporais.
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O corpo, formado pela alma universal e já possuindo uma espécie de beleza, atrai a alma pela lei universal da atração do semelhante pelo semelhante, fazendo com que ela se apaixone por sua própria imagem.
A criação do mundo material pela alma universal e da vida pela alma individual não pode ser absolutamente considerada como uma queda ou uma falta.
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Tanto uma quanto a outra, em sua criação respectiva, só puderam proceder segundo razões cuja sede está na razão, essencialmente unida ao Uno, ou seja, a Deus, sem o que não teriam tido modelos ou ideias para criar.
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O mundo não é mal feito, nem o corpo é maldito, sendo ele apenas uma imagem do inteligível, não podendo existir uma imagem mais bela.
Não é apenas a alma que quer estar presente ao corpo, pois o corpo também quer estar presente à alma, desejando receber sua perfeição, já que não é um corpo vazio e morto, mas vivo pelo menos em potência.
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O corpo, movendo-se em sentido contrário por um instinto ou desejo obscuro, mas poderoso, eleva-se espontaneamente em direção à alma, sendo esse desejo já um começo surdo da vida.
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A criação do corpo material já era a realização de algo dado pelo menos em germe, e o corpo vivo foi ao encontro da alma por já possuir uma disposição a recebê-la.
Quando a vida se realizou pelo mútuo aproximamento, não foi uma parte da alma que o corpo recebeu, mas uma espécie de calor e luz emanada dela, tornando-o capaz de sentir o desejo, o prazer e a dor.
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Ao corpo vivo chama-se não mais simplesmente corpo, mas animal, sendo ele dotado da potência geradora e da potência vegetativa.
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É preciso distinguir o conjunto dessas funções passivas, chamado hábito passivo ou sensação externa, da sensação interna pela qual se toma consciência dos estados afetivos.
Plotin esclareceu as relações da alma e do corpo comparando-as à ação da luz sobre os corpos que ela ilumina, dando a esse modo de ação o nome de “ellampsis”.
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A atividade geradora que se escoa como de um sol de todo ser em quem a vida é plena é, em cada um, uma espécie de luz cuja fonte última está no princípio supremo do Todo.
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A alma não é verdadeiramente luz, pois ela mesma recebe a luz e é iluminada, sendo o Uno, Deus, a verdadeira luz, o princípio da luz.
Sempre iluminada, ou seja, incessantemente criada, a alma ilumina sempre, ou seja, cria incessantemente, dando a vida às coisas inferiores na medida variável de sua aptidão própria.
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Era necessário que a alma procurasse proceder, exteriorizar-se e objetivar-se, sendo assim que nasceram primeiro a matéria e depois o corpo vivo e sensível.
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A incorporação real é apenas o desenvolvimento de uma tendência que já existe na alma incorporal, pois no incorporal psíquico já se encontra encerrado o princípio do corporal.
Plotin caracterizou a tendência interna e imanente da alma a se exteriorizar chamando-a de orgulho, tendo a alma a vontade de pertencer a si mesma, de ser uma personalidade distinta, um eu.
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A alma, em seu estado incorporal, move-se livre e espontaneamente, e essa mobilidade e liberdade lhe inspiram o desejo de se separar das outras almas.
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A individualidade não tem como princípio a incorporação da alma, pois ela já existe em potência e pelo desejo na alma incorporal, mas ela é incompleta a ponto de a alma sentir necessidade de a aperfeiçoar entrando num corpo.
A vida, que é um ato da alma, afeta o corpo presente, assim como a luz afeta o ar, tornando-o luminoso sem passar para dentro dele como uma simples qualidade.
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Há, no interior do corpo luminoso, um ato, uma superabundância de vida e, no exterior, um ato exterior, imagem do ato interno, que não se separa dele enquanto este age e subsiste.
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Se o objeto no qual o ato superior da luz fez irradiar uma segunda fonte de luz desaparece, a primeira subsiste, mas, não tendo mais onde se estender, ela cessa de se projetar ao exterior e permanece encerrada dentro de si mesma.
Há uma parte da alma na qual está o corpo, como o ar está na luz, que o faz viver por sua presença e seu irradiamento: é a potência natural e geradora.
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Há uma outra parte da alma na qual não há nenhum corpo, como a luz que, não encontrando mais lugar onde se estender, permaneceria e irradiaria em si mesma: é a potência superior e principal da alma.
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Se o corpo é destruído, a vida que a alma lhe emprestava não é destruída, pois ela é a imagem da primeira iluminação, mas, não encontrando mais corpo, ela remonta à sua fonte e se reúne ao seu princípio.
O laço que une a alma ao corpo não se dá de modo imediato, estabelecendo-se o relatório por um intermediário que é o pneuma.
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O pneuma é um corpo aéreo, etéreo ou ígneo, que a alma reveste antes de revestir o corpo sólido, estando espalhado em nós e circulando ao redor de nossa alma.
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Nesse pneuma, que é dado pelo céu e pelos astros, reside a alma vegetativa, não se separando ele da alma quando ela deixa o corpo sólido destruído.
Esse pneuma, chamado por Proclus de veículo ou carro da alma, é eterno e imutável por causa de sua essência, que é a mesma que a da alma.
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Ele é o primeiro corpo que a alma reveste ao sair da vida incorporal e ao descer primeiro no céu, sendo um corpo imaterial, invisível e não sujeito às impressões dos corpos.
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É a primeira incorporação da alma, que precede e condiciona a outra, pela qual a alma reveste um corpo terrestre, cuja natureza é mais ou menos grosseira conforme as almas se tenham mais ou menos afastado do inteligível.
A alma humana tem certamente existências sucessivas, passando de um corpo humano a outro corpo humano, sendo a consequência de suas faltas aqui embaixo entrar em outro corpo.
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Aqueles que só viveram de suas sensações entram no corpo de outros animais, conforme as diversas paixões a que sucumbiram, havendo corpos de animais que encerram almas humanas.
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A doutrina psicológica do pneuma permite conceber ou pelo menos não contradiz as opiniões antigas sobre a descida, a subida e as migrações das almas.
Aparece, na incorporação, a lei universal que governa o mundo criado e mesmo o mundo ideal, segundo a qual o universo devia viver de uma vida infinita, una e contendo todas as vidas.
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Era preciso que, na continuidade das existências, se estabelecessem diferenças infinitas de graus, de maneira que todos os seres fossem dispostos numa série graduada e ordenada.
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Na vida do universo, todos os membros, ligados entre si por relatórios de causa e efeito, se sucedem numa ordem crescente ou decrescente, ascendente ou descendente.
A vida, no universo, assemelha-se a uma cadeia imensa em que cada ser ocupa um ponto e forma um anel vivo, engendrando o ser que o segue e sendo engendrado pelo ser que o precede.
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Cada ser é sempre distinto, mas não separado daquele que ele engendra e no qual ele passa sem ser absorvido, constituindo um todo vivo de sua vida própria sem deixar de ser uma parte do todo que o envolve.
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A ordem determina o lugar que cada ser ocupa na cadeia do todo, fazendo-os sair e evoluir de seu antecedente imediato e neles fazendo-os voltar, para manter a harmonia e a unidade.
As coisas são feitas umas para as outras e umas pelas outras, não sendo separadas do Todo, agindo umas sobre as outras e dependendo mutuamente umas das outras.
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Elas constituem uma série onde cada uma, por um laço natural, é o efeito da que a precede e a causa da que a segue.
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A noção de meio, que está em proporção com os dois extremos que ele une e separa, tem um papel importante, sendo a alma sobretudo considerada como um intermediário.
A alma é um intermediário entre o mundo sensível e o mundo inteligível, assim como a razão pura é intermediária entre a alma e o Uno.
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A alma possui em si mesma o princípio, o meio e o fim, ou seja, a razão pura, o entendimento discursivo e a sensação.
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O pneuma serve de intermediário entre o corpo e a alma, destinado a explicar seu relatório, mas não é a substância da alma que entra em comunhão com o corpo, e sim somente suas potências.
Do mesmo modo que o Uno ou Deus permanece em si mesmo enquanto suas potências descem nas coisas, a alma, permanecendo intacta e pura em si, emite nas coisas suas potências.
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As potências da alma nunca estão inteiramente separadas e como que cortadas de sua substância, de modo que se pode dizer que, onde suas potências estão todas presentes, a própria alma está presente toda inteira.
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A alma está presente por suas potências ao corpo, cujos órgãos elas põem em movimento por seu ato, o que leva naturalmente a tratar das potências da alma.
