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Excelência (arete) em Aristóteles

Caeiro: ACCA

A perspectiva da análise da excelência (arete) em Aristóteles

A perversão (kakia) é compreendida como um acontecimento deformador que afeta globalmente o sentido da existência humana, alastrando da lucidez (psyche) à totalidade dos entes e mergulhando-os no caos.

  • A perversão que afeta especificamente a lucidez é experimentada como perda da organização (taxis) e da ordem (kosmia), isto é, como esboroamento das condições para que o humano se aproprie autenticamente de suas possibilidades de vida.
  • Enquanto a perda da potencialidade de um instrumento, de um artefato ou de uma árvore não leva a uma desorganização da totalidade dos entes, a presença da perversão na lucidez humana conduz a uma perturbação no modo como a totalidade dos entes é habitualmente experimentada.
  • A perversão que afeta a lucidez no seu todo e os restantes entes é concretizada como um impedimento estrutural à compreensão do sentido do horizonte da situação humana (praxis), núcleo de sentido onde radica a existência humana.
  • É pela perda da excelência humana (anthropeia arete) e não pela perda da excelência específica de cada coisa (arete hekastou) que todos os entes mergulham na impossibilidade da comunhão que mantém em conjunto tudo em geral.
  • A frase citada sobre o Górgias indica que a perda da excelência humana leva à impossibilidade da comunhão, e a frase subsequente reforça que essa comunhão é o que mantém em conjunto tudo em geral.

Determinação preliminar da necessidade de uma abertura sensata (phronesis) ao bem (agathon) da situação humana (praxis)

A problematização do acesso ao bem é central e decisiva em Platão, cujo esforço visa tematizar uma perspectiva que torne possível a constituição de uma perícia (techne) a partir da qual se possa identificar o alvo (skopos) que, tido em vista, permite interpretar os fenômenos patológicos nos seus limites prazer (hedone) e sofrimento (lype).

  • Ao ter em vista o alvo viver bem, é possível interrogar as movimentações determinadas pela estrutura patológica, indo além da mera reação espontânea de fuga (phyge) ou de perseguição (dioxis).
  • A perícia que tem em vista o alvo viver bem é responsável pela libertação do instante patológico para a liberdade de escolher a direção da ação, tendo em vista o seu autêntico sentido.
  • No esforço de tematização platônica, procura-se determinar concomitantemente o sentido da excelência especificamente humana (anthropeia arete), cujo desvirtuamento provoca uma desordem generalizada.
  • O motivo antropológico que está na origem da pergunta platônica pela excelência (arete) deixa de ter um papel preponderante, passando a pergunta a incidir sobre o sentido (logos) e a forma de manifestação (eidos) fundamental de cada coisa.
  • Aristóteles visa, pelo contrário, reconduzir a pergunta pela excelência (arete) ao horizonte especificamente humano, partindo do pressuposto segundo o qual a forma de acesso a essa possibilidade radica numa forma de desocultação especificamente humana.
  • Em Platão, a pergunta pela excelência leva à descoberta do horizonte da situação humana (praxis) como um novo campo de investigação em contraposição à natureza (physis), mas a pergunta pelo estatuto da organização (taxis) traz consigo um esbatimento dos contornos entre esses dois horizontes.
  • Com Aristóteles, a pergunta pela excelência (arete) passa a platonizar-se, ao ser reconduzida ao horizonte do caráter (ethos) do humano, abandonando a pergunta pelo sentido ontológico do ser enquanto ser para experimentar um interesse antropológico ou ético.
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