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autores:aubry:reminiscencia

Atualização e reminiscência

PLOTIN. Plotin. Traité 53: [Ennéades] I, 1. Gwenaëlle Aubry. Paris: les Éd. du Cerf, 2004.

A identidade do sujeito plotiniano depende não apenas da orientação da consciência, mas também de sua função de atualização: a consciência é o que faz passar seu objeto do em-potência ao ato, e não apenas o que se dá um objeto à exclusão de todo outro.

  • O tema da atualização percorre todo o Tratado 53, entrelaçado ao tema platônico, inspirado no Teeteto, da marca ou da impressão (tupos).
  • No parágrafo 7, a sensação é caracterizada como articulação das tupoi dos objetos sensíveis com as das Formas inteligíveis.
  • No parágrafo 8, Plotino opõe a simples hexis (disposição) do intelecto ao intelecto ele mesmo (8, 3).
  • O parágrafo 9 precisa as análises do parágrafo 7: o raciocínio verdadeiro subsume os tupoi sensíveis sob os tupoi inteligíveis e pode ser definido como a colocação em ato das noções: “νοήσεων γὰρ ενέργεια ή διάνοια ή αληθής” (9, 21-22).
  • Plotino chama essa operação de “reminiscência” no Tratado 49 (V, 3) 2, 7-14 — fusão de platonismo e aristotelismo, também associada ao tema estoico da crítica das representações.
  • A reminiscência não é nada além da atualização do inteligível.

O inteligível não é, a princípio, para cada um senão uma presença inapercebida, uma simples disposição, e a atualização das formas depende da orientação da consciência.

  • A alma separada é contemplação em ato do inteligível — contemplação em que se confundem o inteligível e a inteligência —, mas dela não se tem consciência imediata.
  • As formas em nós se dão primeiro apenas em potência, e a potência de contemplá-las é, a princípio, uma simples potencialidade.
  • É ao tomar consciência do inteligível em nós que o atualizamos e, por isso mesmo, descobrimos que nosso ato próprio reside na contemplação (11, 5-8).
  • Tomar consciência é, aqui, “realizar”: não apenas se aperceber de uma existência, mas fazê-la passar do em-potência ao ato, de uma presença inapercebida a uma presença efetiva, tendo assim acesso ao mais real, ao essencial.

A consciência plotiniana é, portanto, condição do acesso à essência enquanto princípio de uma atualização: é por ela que nos tornamos em ato o que éramos apenas em potência, e o processo de identificação à essência deve ser pensado como adequação ao ato essencial.

  • Esse processo não é nem imediato nem necessário: as duas orientações possíveis da consciência estão em proporção inversa — quanto mais se é consciente dos atos do composto, menos se pode sê-lo do ato da alma separada (11, 1-2).
  • Plotino dá o exemplo da consciência infantil como consciência ativa e efetiva do corpo, latente do inteligível (11, 1).
  • Cita também o exemplo das bestas — sobretudo as que são a reencarnação de almas humanas: a alma separada lhes está presente sem o estar (11, 11), presença que jamais se tornou consciente.
  • São reencarnadas em bestas as almas que nunca ultrapassaram o estágio da consciência infantil — cuja consciência, durante toda a vida, foi fascinada pelo animal.
  • Tornam-se bestas as almas humanas que falharam sua humanidade: por nunca terem tomado consciência de sua potência de pensar, permaneceram alheias à sua essência.
  • Sua nova forma é apenas o sinal desse afastamento jamais abolido nem sequer suspeitado.
  • Elas também, em certo sentido, tornaram-se o que eram: atualizaram uma de suas potencialidades — mas, ao atualizar o animal nelas, escolheram seu ato inesencial.

O sujeito plotiniano não tem outra identidade senão a possibilidade de um duplo devir em potência: um pelo qual reencontra seu ser essencial, outro pelo qual o perde para sempre.

  • A questão plotiniana do sujeito não se confunde com a questão platônica da essência do homem.
  • Chama-se “sujeito” aquele para quem sua humanidade não é um fato, um dado, uma identidade imediata e efetiva, mas um possível — um ser em potência — que pode tanto realizar quanto falhar.
  • Ser um sujeito é, afinal, ser responsável por sua humanidade.
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